21.3.16

Outono

Nesse ciclo, são seus os dias do início
Nesse seu passar, são suas, as folhas que caem
Você infligi ao tempo, um abraço de vento
Desfolha a vida, renova dos galhos às nossas despedidas
Todas as minhas certezas, descoloridas com a sua vinda
Na minha tentativa de entendimento
Uso eu, no seu dia, estação e poesia

4.2.16

#Inspirações-001

Bukowski - O Pássaro Azul
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
aqui dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres estragar o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão dormindo.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer por completo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e você?
Charles Bukowski

27.1.16

Fantasias

Quantas fantasias emocionais
Somos tantos
De qual dos meus
Me sei mais?

Desse que nasce agora
Ou desse eu antigo
Que não vai embora?

Sou eu mentindo pra mim
Ou o mundo que já não me convence mais?

22.1.16

Tons de cinza

Sob seus tons de cinza,
Esse olhar rente ao seu, que a pinta
De preto e branco
Você veste, esse sorriso de sombra
É luz na minha noite
Desse contraste da sua tinta
A pose é sua,
Metade dessa minha sintonia
De ver no seu posar,
Poesia!

4.1.16

Sem se despedir

Quando lhe é retirado o direito ao adeus, a saudade escreve na alma um desejo de presença que não aceita despedida.

14.12.15

Música

Pois na música da vida, dançar é um deleite à parte.

A quem falo de amor

A quem falo de amor, muitas vezes não me escuta, pois nem sempre pode me ouvir
A quem entrego o que sou, não sabe o caminho, só conhece a medida do doar-se em precisão
A quem me dou, sabe, mesmo sem saber, que embora seja sempre água, ha diferença entre,
Cobrir os pés e cobrir o corpo!
Quando falo eu, de amor
Não me escute, leia meu verbo
A quem falo de amor, falo com barulho nos atos
Silencio à boca, só a abro pro beijo
A quem falo de amor.

4.11.15

Colheita

Às vezes planto ausência,
...para colher saudades.

Mas de alguma forma semeei indifereça
...e acabo por colher descaso.

30.10.15

Jogo de dados

Matamos nossa responsabilidade (!),
nos demos de presente o descaso.
O trabalho e a conquista, como recompensas
daquilo que recebemos por pura sorte

17.7.15

Brincar de mentir

Uso as frases como brinquedo
e não há uma, que não seja verdade 

Você brinca com a verdade
 e não há uma em que se possa acreditar

10.7.15

Desgosto

Perdi o gosto pelo futuro
Estou preso às minhas melhores lembranças
Implorando-as, uma qualquer coisa de agora.

8.7.15

Quem mata?

No mundo em que vivo
Há quem fale de deus e mate
à sangue frio mesmo
Empunhando preconceito, como arma

A fome, ainda mata
A indiferença, acredite você
Mata!
O ladrão, morre se a gente vê

Até a gente mata,
nos dias de hoje.
Quando se cala
Quando aceita mudo

esse gole intolerante
De que a desculpa serve como ladra
para que se tome à vida na marra.

Na tentativa vã, de mostrar seu valor,
quem mata?
Quem acredita, que se paga com morte,
à ignorância de não ensinar,

O valor da própria vida.

7.7.15

Pontos

Que ainda lhe sobre doçura
Quando o mundo lhe for amargo

Que ainda lhe sobre um som
Quando o mundo for silêncio

Que sobre lembrança
Em dia de esquecimento

Que sobre um sorriso
Em dia que formos chuva

Que nos sobre um pouco de humano
Quando formos tão feras

Que sobre em nós
Um pouco de eu

Que sobre letras
Para tantos pontos

6.7.15

Sol

Toda vez que duvidei do sol,
foi por ter me distraído com o tempo,
vai ver é assim também com o amor.

19.6.15

Passível de mentira

A pedra que bate em minha janela
É esse silêncio rochoso
É essa certeza indelicada
Com seu efeito doloso

É passível de verdade
Todo meu desinteresse interessado
Toda minha vaidade

Da sua ausência, duas letras e um nada
Das certezas, uma palavra nova mal colocada
De todas as mentiras dissertadas
Coincidências descartadas

É passível de mentira
toda rima que culmina
Nessa blasfêmia toda minha

Para os verbos insaciáveis
Minha loucura justifica
Toda uma razão que rumina
Doses de desejos irrefutáveis

16.6.15

Indiferença

O meu sorriso, que não sorri pelo seu,
Não faz diferença!
O seu sorrir, que o meu saber desconhece,
Não faz diferença!

Que diferença faz, o meu agora?
Agora?
Agora não faz diferença!

Desacostumei de sua presença
Qual a diferença?
Desacostumei ainda, de sua ausência

E se não for verdade,
qual a diferença?

Não importa mais
Sobrara nossa indiferença

15.6.15

Sentido distorcido

Há uma distorção, no meu não.
Amor é um verbo que não se conjuga no passado.
Meu pretérito é um talentoso nato

Quase vive, nos meus agoras
A hora não encena, seus minutos
O fato, fotografado

Revela um arrastar de rodas,
Uma dissonância, com o barulho do seu silêncio
Que eu engulo à seco.

Um bêbado de memórias
Absolvidor de certezas condenadas
Às eternidades de seus percalços

1.6.15

Seguros, seguimos.

De alguma forma parece que vai passar, parece que vamos amadurecer na manhã do dia seguinte e dar vazão a tudo que sonhamos. Parece que resolveremos nos colocar à luz da maturidade e oportunidade, anunciaremos que o dia chegou e que agora é a hora de assumirmos tudo. Descrito assim, parece que ao ler o coração pega carona na ladeira do entusiasmo e como para descer todo santo ajuda, seguimos sem ter que por a mão na direção, é só deixarmos ir e iremos.

Errado!

Não sairemos daqui, de onde pegamos o trem andando, antes de escolhermos a estação adequada para descermos. Parece que a viagem virou um exílio, não têm passageiros no vagão que entrei. Exilados do amor, nós encontramos uma galeria de prediletos das dores, sem a força e a fé do impulso de tomar a vida pra si.

Seríamos tão mais felizes, dois passos à frente, na chuva mesmo.

- Você já foi feliz na chuva? Eu já!

Quero dizer de quando a felicidade é tamanha, que o frio vira motivo de riso ou desculpa para um abraço mais apertado, não esfria, o molhar da roupa não incomoda, mesmo que ainda lhe falte uma condução até em casa, ou uma caminhada demorada.

Mas se vamos sair daqui? Não, acho que não! Perdemos para a repetição dos dias, perdemos para nós, perdemos para o nosso começo, não era pra ser assim, mas agora que já foi, pode-se somente acomodar-se no que é, pois ser mesmo, não pode.

A gente só está na composição, torcendo pro maquinista não sair em qualquer estação, ou que o destino final, por sorte seja o mesmo de quando embarcamos. Ninguém pensa em descer, por que lá fora faz frio e as estações andam vazias demais, talvez tenhamos que aceitar, que mais cedo ou mais tarde, toque uma espécie de sinal e que saltemos com um adeus perdido em mãos, ou quem sabe, seguiremos aqui, do lado de dentro, nesse trem vazio, acento duro, mas seguros. Seguros! Só ainda não sei bem de que.

28.5.15

Clava da vida

De qual mentiroso são todos os dias pares
A quem pertence esse dizer
Que a felicidade é provada nos ares?
Com esse cinza que decoro meu ser

Se sempre sorriso, qual então sua graça?
Se sempre tristeza , que alegria mereceria?
Que amar, não fere a dor de não ser farça?
Que farça amordaça a felicidade que seria?

Da tirania da vida, ninguém escapa
Ora, se sabes-se vivo, que há de mistério?
É de sua clava,
todo querer, sofrer seu demérito

Que tolice a de ofertar-se ao tempo
Um dia, o mais antigo
Terá dito, que fizera dele seu amigo
Para fingir ao fim, empenho

Então, guarde seu palavrório
Esse júbilo falacioso
Hoje eu sou crematório (de mim, é verdade)
Uma cortezia cinza de um morrer audacioso

Ceifadora

Tem dias que a natureza deveria ser carinhosa com a nossa ínfima expressão de existir, nos tirar a vida como uma mãe que nos dá colo. Carinhosamente, até que os olhos se fechem. Tem dias que morrer me soa mais como um sorriso que como um adeus de qualquer tipo.

18.5.15

Desconstruindo

Eu gosto de me desconstruir
De esticar a vida pra entender a falta
De grudar até ser composto por parte do outro
De justificar com encanto a razão
Eu prefiro me desfazer em farelos
De abraços,
De olhares,
De gostos
Assim, me decompondo inteiro
Fatias de mim
Que o tempo leva como rasura
De um advir perfeição
Eu ainda prefiro ser poeira
Essa que gruda com o vento do sentir
Na superfície desértica de sua pele
Como se fosse, das suas pintas, o contorno
Eu ainda prefiro morrer no sim
Tempestade de mim
De querer ser
Levado como areia pelos seus pés
Que deixaram pegadas
De que um dia, você passeou em mim.

2.4.15

Mil preces

Que se abram, mil portões
Com o seu silêncio

É nele que dorme a fé
Da senhora, que a saudade abate
Ao amor que foi dormir lá fora

Da dor que não cala
A felicidade que ficou
Antagônico ao ausente que pareça

Ela tem pressa
que atendam sua prece

Distraído

Hoje, passeando distraído
Tropecei no seu sorriso
Desculpe,
E esbarramos de ombros, na vida
Foi sem querer,
    que ao lhe descobrir
Me apaixonei pelo acaso

4.2.15

Culpados?

A culpa nunca foi das suas promessas
Foi do meu acreditar que se apaixonou por elas

Não foram suas faltas, foi a preferência
Eu não mudei o sabor e talvez você preferisse algo mais amargo

O tempo foi uma das vítimas, era novo demais
Engasgou-se com tantas histórias pela metade,

A realidade deu um tiro no futuro na frente dos nossos olhos
Alguém sequestrou a esperança e como resgate nos cobrou mentiras.

Me lembro do choque ao encontrar a certeza.
Era ela quem sussurrava verdades que fingia não saber.

Não, a culpa não foi das suas promessas,
Foi do meu acreditar, que gostou de cada uma delas.

Descobrimos que a saudade tinha sua irmã gêmea e que nós a separamos
A convivência com ela sempre foi a mais difícil.

Foi cedo que ela fez amizade com a loucura,
E para que como irmãs se vissem, guardavam segredo.

Hoje eu ainda lhe dou abrigo, faz tempo que não vê sua outra metade
Envolveu-se com um tal de silêncio, agora já o recebe em casa

A loucura anda se consultando com a razão, já não se falam tanto
Mas a culpa foi mesmo do meu querer

Ele insistiu em suas promessas,
Eu só quis acreditar em você.

21.1.15

Falta

Falta, tem um quê de lembrança, uma fatia de querer e umas duas metades, uma de futuro e outra de passado. Falta, não é uma regra, nem uma imposição, é um caminho que o sentimento encontra por ser livre, para aonde ir. Falta é aquele olhar de cão sem dono, que ao se despedir, corre à porta e olha pra quem quer que seja perdido: "Não é você! Cadê?"; Falta é essa atmosfera de saber onde, quem, quando, tocar isso com os olhos fechados, se sentir imenso e ao abrir, olhar no espelho de si mesmo, falta. Falta não é se saber metade, é saber-se inteiro para alguém, que sendo inteiro também, se oferece para ver que ser, está muito mais ligado à incompletude de ser inteiro, do que ser metade de fato. Falta não é o que ainda virá, é aquilo que previamente sabido, o desejo pede no presente. Falta, está bem mais próximo às palavras que não encontrei para explicarem o seu sentido, que a todas as escolhidas, por uma pequena definição lógica. Tentando lhe dizer a falta que faz, percebo que dizer é encontrar, e a falta que faz, não encontra palavra nenhuma que a defina, ela falta por inteira...

13.1.15

A tristeza tem sempre uma esperança

As pessoas não gostam mais de amor em poesia, preferem aqueles dizeres de um anônimo, como se pudesse contar uma história boa do inicio ao fim, sem falar das partes ruins. Ensaiam a felicidade pelo sorriso, sem saber que atrás de cada sorrir existe uma fatia de lágrimas escorridas e outras secas e outras tantas, bem contidas. Tenho lido tantas fórmulas do amor certeiro e livre, como se o exercício do amar bastasse para acertarmos as contas com nós mesmos, sem termos aprendido antes pelo erro. Embora eu não concorde em nada com a máxima de que é pelo erro que se aprende, pois para mim é pelo erro que se erra e se machuca. A dor nos faz evitá-la, de punhos cerrados ou coração apertado, não importa, e a isso chamamos aprendizado. Aprendiz mesmo, pra mim, é aquele que sabendo que magoar dói por ter visto a mágoa fazer mais uma de tantas de suas vítimas e escolhe por não fazê-lo, ou aquele que aprendendo a gostar de si e investindo em seus sonhos, colha com os frutos de viver o que sonhara. E vale lembrar que gostar de si mesmo requer um exercício diário e longo, afinal é você quem mais lhe causa infortúnios ou males a qualquer outro. Por vezes por dar valor a algo que não merecesse, ou por ter mudado de opinião nos trinta minutos do segundo tempo e querer parar o jogo com o estádio lotado, mesmo sendo o juíz, ou por simplesmente não gostar mais de vestir azul e se deparar com um armário que mais parece o céu e perceber que não tem o que vestir, mesmo com tanta oferta. Dada as proporções das dores que sofremos, de certo mesmo, é que temos que lidar com o que escolhemos e aceitarmos a nossa responsabilidade em nossa busca pelo que nos faz feliz, que a tristeza não é só um antônimo deste estado, como uma companheira incentivadora de nossa busca, é para que não sejamos tristes que buscamos essa tal felicidade, mas não difamaria qualquer tristeza que passei, afinal foram elas que me deram as marcas das minhas gargalhadas, essas que insisti em dar por saber o valor mensurado em cada fatia de seu avesso. Mas como eu ainda sou um desses que gosto de poesia, pra mim meio verso quase basta, "A tristeza tem sempre uma esperança, De um dia não ser mais triste não" (Samba da Benção - Vinicius De Moraes / Baden Powell).

19.11.14

Rotina

Eu ainda passo pela mesma rua, ainda no mesmo horário e esbarro em lembranças vivas. Se é um casal que vejo de mãos dadas, é na imagem deles que beijo o beijo que já não tenho mais. Eu ainda faço o mesmo caminho de dias atrás, como alguém que caminha catando conchas, eu vou colecionando lembranças, um banco de praça, uma faculdade que não fiz, uma rua e um passeio às pressas como sempre, um ponto de ônibus, uma esquina ao lado de casa. E na tentativa vã de não deixar que o passado tomasse sua companhia, guardei-me em algum elo com uma realidade decorada de recordações.

14.11.14

Como estrela

Ela pensa não ser mais vista
Sabe aquele mirante de frente para uma beleza inteira?
Deveria ser criado um só pra ela.
Com fundo de luzes e lua, de sol até estrelas.

Nem ela, observa-se tanto,
Sou um telescópio inteiro apontado para seu ser.
Um louco ao encontrar brilho e cores numa estrela distante.
Onde só resta o observar, a imensidão do céu e o devaneio.

A sós com cada raio de luz que chega,
Pois aqui eles chegam com atraso,
A fonte segue à risca a física
É um ver no presente o passado

Essa minha lente distorcida
Essa minha mente que faz da saudade prisma
Sentado aqui nessa beira de caminho
Recebo cada um dos seus raios

Que ainda escolhem por brilhar na minha vista.

Retalhos - Nós perdidos - #1

Eu nunca escrevi poesias, sempre liguei pontos no escuro de um papel, para ter no desenho das letras, companhia.

10.11.14

À deriva

O difícil é seduzir o barco à segurança do porto, justo pra quem já se acostumou com as tempestades.

23.10.14

Travessia

faço a travessia em silêncio

um terço é coragem,
outro lábio de harmonia
para falar de saudade
a quem já viveu de espera.

vou fugir da noite
recostar a cabeça no peito de um sorriso
acompanhado de passado

que é pra não acordar
a dor que dorme
na beira do caminho

4.9.14

Trovões

Tardes torneadas de tons tristes
Recebo rosas roubadas em resmas de rimas
Lhes digo, durmam durante meu dizer
Pois tardo trovões tirânicos
Como sonhos sonhados sãos
Em plena luz do dia!

25.6.14

Segredo

Ele descobriu um olhar
Ela um menino
Ele sentiu vontade de se aproximar
Ela apenas não quis se esquivar
Ele veio falar dele
Ela tinha o que escutar
Ele encontrou no acaso um espelho
Ela se desencontrou ao se achar
Ele fingiu não ter tanto a dizer
Ela ria das pequenas coincidências
Ele marcado pela vida
Ela a marcar a vida dele
Ele se perdia em conhecê-la
Ela se encontrava por se perder
Ele pele e beijo
Ela tempero e ímpeto
Ele desejoso e arteiro
Ela de vestido e vestida de olhar
Ele inventando meios
Ela dando um jeito de se levar
Ele intensidade
Ela intensa em se entregar
Ele hoje é saudade
Ela um segredo a se guardar

17.3.14

Dia de Poesia

A poesia é o meu não entendimento por extenso,
quando da vida, quero um contento

A poesia não é meu recurso, é ela quem me toma e abusa
quando para ela a causa é justa

A poesia não é meu brinquedo, que eu tomo a revelia
e marco no seu olhar a minha visão distorcida

A poesia é que me usa, que a compreensão só me resta
para justificar a loucura de ser tomado por ela

A poesia, é uma razão da vida que a própria vida
não precisa

A poesia é um pôr de sol sem fotografia, sem grafia,
é a abstração do entendimento
uma ideia que a palavra desperta depois de lida

A poesia é o espelho dos sentidos,
sem dar nenhuma forma ao que se revela

11.3.14

Acredite

Se eu pudesse lhe sussurrar os meus anseios
Será que teria os meus calafrios?
As promessas que faço são levianas e mornas,
diante do que vejo com os olhos fechados.

Eu poderia lhe dar o mundo, aquele dos sorrisos,
dos crimes justificáveis, dos erros desculpáveis,
do suor das manhãs esgotadas de sol e pele

Eu poderia correr a vida
Com a mão estirada ao seu alcance, 
Para que tivessemos o apoio no cansaço
E o abraço na vitória

Eu condenaria a sua dor à solitária,
Anos a fio, mas não impediria que você a visitasse,
Pularia os muros feitos de cada não
Converteria as incertezas, com esse meu otimismo desmedido

Seríamos capazes de tudo, os infinitos recomeços
O reconhecermo-nos a cada intervalo em que mudamos
Sempre com o mesmo entusiasmo
Esse que cria a paisagem da estrada e no fim, um abrigo

Não fosse, por não poder pedir que acredite no que vejo,
não fosse os olhos fechados e o sonho,
não fosse a verdade de que a sorte pode lançar os dados

E posso parar na outra haste de um bilhete deixado sobre a mesa

10.3.14

2:14 - AM

O relógio me agride,
Ele grita,
- Uma hora da manhã!,
num silêncio retumbante, acredite.

Ele estampa na minha cara
E mira o tempo no entendimento
Minha insônia dorme sua madrugada
Enquanto eu a aprecio e acalento,

Ou eu dou voz a todo momento

A um velho amigo que anda trôpego
Batendo meio torpe
Sem fôlego

Me pedindo um pouco mais de tempo?

Sorte tem o homem que a insônia desperta
Acorda e vigia de longe o sono
E ele sem saber, vítima de um adiamento
Sonha sem querer

Que quando acordado
Ela lhe rouba o tempo em pequenos ensaios
Ou lhe toma o futuro inteiro
Com seus presságios

Já não importa tantos anseios
É o nosso estar presente o que damos
Hoje sou eu quem não adormeço

Pois é quando o tempo voa
Que vivo todos os meus intensos!

6.3.14

...

A gente já não fala mais a mesma língua
Você busca abrigo em antigas marquízes
Eu me escondo numa nova vírgula,
Enquanto a sombra torneia nossos deslizes

Você faz cair folhas passadas
Agitando uma velha árvore
Pintando a minha calçada
Dessa tristeza de mármore

Pouco nos importa, além do que era posse
Sobrou de mim um livro lido
De você, um desejo de sorte

Sabe aquele corte?
Passou, remediei com soro e gaze
Sabe aquela frase, que você gostou?
Eu guardei com tudo que sobrou

O que não passa mesmo é a gramática
Quando eu falo de pronome possessivo
E você usa livre como adjetivo
Nessa nossa errante temática

Vai ver foi sem querer
Que a gente não deixou de gostar
Nos apertamos num encaixe de ter
Para esconder em qualquer lugar o dar

Vai lá e sorri na cara dele a beleza que não soube extrair
Que eu vou ali,
desmedir o beijo que sempre foi seu

Abraça-o tão forte, mas sem mentir
Que eu vou ali,
dar o meu amor como se não tivesse conhecido o seu

A culpa é mesmo do nosso português,
pois o eu não combina com você
Mesmo que você, combine com aquilo que era meu

18.2.14

Não

Seu não, tem direção
É aquela placa de atenção,
é a curva no meu caminho

É o abismo no deserto,
É meu destino,
Incerto

Ser for não

12.2.14

Em um só, tantos de mim

Há algo em mim que desperta
Há algo em mim que silência
Há algo em mim que fere
Há algo em mim ferido

Há, há sim!

Há algo em mim que sorri
Há algo em mim que chora
Há algo em mim tão ambíguo
Que sua existência revela seu inverso

Há em mim algo
Há em mim vazio

Há em mim,
Que ao existir
Não há

por haver tantos,

Em um só,
Tantos de mim

7.2.14

Recomeços

Esbarro nos meus recomeços
Infinitos de mim mesmo
Tardo, confuso, falho

E lá vou eu
Desgarrando de tantos meus
Juntar novos achados
Atar novos laços

Para não ter de recomeçar
Por mais um breve espaço

Atração

Imaginando-nos como uma força que move o nosso redor,
modificando-o pelo que se é,
Quando se sai, o meio todo se revela
As aproximações, não reagem por efeito impositivo,
São as mesmas exercendo a mesma foça,
Apenas agora, não sofrem a ação da sua energia
Logo, tudo tende ao que era, como um reagrupamento natural,
mostrando somente o que realmente somos
E aquilo que lhe atrai, lhe revela

Vivos


…Acima de qualquer coisa, supere-se! Supere não somente a isso, mas a escravidão do pensamento que se acostuma com o abater-se, com os nossos pedaços. Una-os, erga-se…

Não é a morte o limite da vida e sim da nossa ignorância. Não é a dor o limite do sentir, e sim o não sentir o limite de sentir dor.

E até que qualquer pior que se imagine chegue, tenha nos dias os apelos da ignorância: viva-os como se tudo fosse saudável, como se não se fosse nunca, como se não sofrera de nada.

E não imagine isso como uma mentira, pois podemos ferir o corpo, agredir o físico, mas jamais fragmentar a alma. E essa alma ainda está ai, tão viva quanto a qualquer um de nós.
Não se prenda ao tempo, ao que dirá qualquer quadro. Faça uso do que puder para amparo, mas não tome tudo como verdade. E viva, viva, viva.

Ao destino, ao que vier a acontecer, dê sua ignorância de todo o coração.

12.6.13

Sorte

Sorte dos amantes, que têm nos travesseiros dedos entrelaçados
Sorte dos amados, que têm na distância dos desagrados, saudade
de uma certeza singular
Sorte daquele amor, que sendo amado, sabe-se morno e preso à rotina,
ensolarado pela repetida presença
Sorte dos amantes, que não sonhando, vivem, como se dormissem a vida
Sorte daqueles amados, que tendo a quem amam, mesmo sem o sorriso sorrindo,
são amados amantes
Sorte dos amantes
Amados

21.5.13

Ponto Final


Me perguntaram certa vez.
- Como se desmancha um ponto final? Rabiscando?

- Não! - respondi.
- Acrescente mais dois pontos.

5.3.13

Fraguimentos

Aquele que tu guardas em teu colo encontra-se com os anjos.
--
Me rouba, sentir e alma e fico nu de mim na sua ausência.
--
Deixe-me ser a sua fuga, a sua incerteza segura, sua insegurança perfeita.
--
Posso desejar o seu impulso feminino, a sua insanidade permissiva, um vulcão de prazer em elo sedento de ousadia!
--
Com a sorte, com a noite em meio as ruas, andarilho de costume.
--
E um dia percebe-se que as palavras jamais perdem sua vida e diminuí-las em valor, é o mesmo que nunca tê-las sabido ler.
--
E sendo eu escritor, desses impulsos de alma, jamais deixarei de viver suas intensas armadilhas, uma delas, o amor, esse da paixão do desejo, a do amor de amar.
--
Que sua viagem seja sempre seu abrigo e que sua morada, não passe de seus pés.
--
Sei que a perdi, mas quem sabe um dia, o amor vença ao tempo, o sonho vença a realidade ignorante que joga a mentira sempre, de que nada é pra sempre!
--
Se teme por guiar tuas próprias pernas, não reclame da viagem, no cavalgar de teus medos!
--
Do pecado da carne, conheço quase todos, dos tropeços da mente vazia à liberdade.
...em meu próprio escrever, nesse vulgar homem que profana o ver, na escrita fria que nada fala...
--
A alma é uma montanha, sua erosão ocorre pelas lágrimas de teus olhos e pelo vento de teus medos, a esculpes pelas tuas emoções.
--
...os teus cabelos soltos são o mais belo apelo dos nós que nasceriam dos meus dedos...
--
Será que sou egoísta em me entregar a você, só para ter você pra mim?
--
...ainda lembro de tardes inteiras ao seu lado, essas que nunca tive, tão mais lindas...
--
Morro mais, não quando me matas em ti, mas quando me mutilo, por não poder ser.
--
Me desconstruindo só pra ver "enquantos" pedaços você está.
--
À minha beira, quando me procurares, deixe-me tuas rosas, é o presente dos mortos.
--
Não me encontro no seu tempo verbal, não sei se sou passado, futuro ou presente.
--
Só quem conhece o gosto da solidão, percebe o doce que há no amargo de cada companhia.
--
Ah o amor!... esse menino brincalhão que corre com o coração na mão fazendo arte e a gente feito velho gritando cuidado.
--
Qualquer dia desse eu morro! Assim bem devagar, um pouco no passar de cada hora.
--
Aquele que não sabe lidar com o fim não pode entender o que é eterno.
--
A felicidade se permite à tristes batalhas para que a tristeza não a corrompa por inteira.
--
O difícil é seduzir o barco à segurança do porto, justo para aquele que já se acostumou com as tempestades.

27.12.12

Vai saudade!


Vai saudade!
Diz pra ela, que ela é quem faz você ser
sempre mais doce…

Que só por ela vale viver em latência,
Sem jamais ser morta,
Sem jamais deixar de ser saudade…

Direção

Perdoar-se também é preciso, a força que precisamos ter para seguir um determinado caminho, precisa ser ganha, muitas vezes, estando exatamente por mais tempo na direção contrária.

16.8.12

19.6.12

Vendido ao tempo

Sabes forçar à porta?
Como quem insistes por entrar?
Uma coisa de certeza?

Sabes?
Não sou eu quem te pergunto,
Mas à minha mão, que pergunta a porta
Certa do que diz de fato!

E então me pergunto,
Se a fala é de fato o que traduz a verdade
Essa coisa imediata, do presente
Se perguntas-me, tu porta, à mão

De certeza e a certeza, a si mesma?
Autônoma, solitária, perfeita
Petrificada em verdade.

Ora,

Me dizes agora, porta?
Após resposta da minha mão,
Qual de nós não mente, se à certeza é dado o véu
Essa coisa advir
E  não é dele o doce de deixar de ser?...

Abra-a, mão!
Forte ímpeto do agora,
Que já não sou mais passado,
Me revelo futuro fotografado

De qual segredo somos feitos
Que abrimos e nos fixamos
Na porta aberta da imprecisão do tempo?

Batida

Me dê o doce da solidão,
Enquanto eu tempero o agora com vazios
Misturando lembrança de nós dois
Com açúcar e limão
Uma batida amarga, como se bebe a dois
Enquanto só penso em silêncio
Sozinho em casa
Mesmo com gente na sala
O mais sujo exílio
Nessa solitária de mim mesmo

14.6.12

Bate-papo

Converso comigo, como amigo intimo, a princípio
O faço, por uma convivência, entre o pensamento e o pensante
Ardo trabalho
... a convivência!

Espera!
Desça da escada da vaidade, se te leio
Também, eu?!

Sou pensamento de mim mesmo!

E pasme, tu que finges não me ler

Sou eu falando comigo
Não ocorre o mesmo com você?

... por último
me repito, poesia e poeta,
para fazer do diálogo
um pouco mais doce,
do recanto que criei, para receber a mente
E um pouco de nós dois



29.5.12

Insônia


O seu até breve é sol na minha noite,
é o que não me deixa dormir, é minha insônia.

Meu temor não é sua presença, sua cara de raiva,
nem minhas efêmeras dúvidas que te causam medo
Ou sua face de repulsa,

Meu temor, é o teu invisível,
É o cerco do teu perigo pela minha urgência em salvar-te,
Meu temor é a distância que dissipa o presente, ou desamarra o passado

O teu até breve,
É faca na minha certeza do corpo descrito,
Fincado em você

Até logo não!
Pois o amanhã é distante e o logo não existe!

Feche os olhos e me beije a boca dos sonhos
É onde costumo vingar, plantado no agora,
Eternizado no presente,
Petrificado na necessidade viva,
não de que me viva,

Mas que me saiba vigilante de nós,
Ainda que durmamos muitas vezes
E nesses dias, ainda zelo por teu sono
Pois eu sofro de insônia

30.4.12

Imoral

É bem verdade, a covardia é o meu pior defeito
É a minha qualidade mais humana
Ali, tão irresistivelmente exposto
Covardemente vestido de homem e louco
A poesia de Bukowski, compartilharia minha lama
Defeituoso, torto, ou fraco

Me fale então, a Tua perfeição
Pergunto a Ti, que de tamanho ou benevolência
Me ardiria na alma a dor.

Se do homem ficar por fim, o caráter,
O que falam em tua ausência?
Os meus segredos são profanos
E meu nome uma mordaça

Não desenho o acaso, escrevo a lápis a vida
E o grafite que grava, tem ponta fina
Corta e fura, o papel apenas rasga
Gravo minha falta

Do que vale a minha sorte dada?
Qual dos homens passará por Sua entrada?
Sempre acho que Deus guarda um pouco de vingança e graça

A coragem de ser o que sou,
A poesia não salva
Drummond eterniza, outro rasga

De qual dos meus defeitos o amor se disfarça?

Hoje te faço palavras
Te rabisco no vento
Me julguem os ruins, os que cometem maldade

Não os bons, que cultivam o bem e não entendem
Afinal, deve haver um motivo para anjos terem asas

13.3.12

Inflamável


Estar com você é sempre como brincar com fogo,
sabendo que existe um barril de pólvora no peito…

28.9.11

Conchas na areia

Quando for falar à poesia
Cito os meus murmúrios de respeito
Assino tudo com meu nome, para que tenham a quem culpar
Mas escrevo com letras de sereno
Que colhi no mar da vida

Como a quem recolhe conchas na areia
Brinquei de escolher gente, pessoa mesmo
Com certa irreverência, pois de todos sobrara apenas eu
Mas esse eu de ignorante, pois ainda sei-me burro de mim

E fui 'ajuntar' sem medo, alguns quase amigos
Esses que na hora certa em que a onda chega a praia
Estão à areia com você

Sempre mora mais em mim
Palavras frescas, dessas ainda molhadas de água salgada
Assumo, vezes algumas as colho em rios, então...
Minto se digo que não há doce preso em minhas conchas líricas

Colhi tudo no mar da vida
Ainda que não entenda esse baú de coisa sem preço
Meu apreço é dessa coisa toda dividida
Afinal escrever moço, é 'ajuntar' a sua língua embaralhada

De um dicionário sortido
Ou desse dividir íntimo de encontrar uma letra
No abismo de um 'A'...prolongue-o (aaaaa)!
Ou no suspiro de um U... esse de quase mesmo, (uuuu)!

Mas junta os 'pedaço' e vê se não sai,
Torcendo como pano velho, essa coisa de passado
Esse trapo molhado
Pra ver se não pinga

Amigos de hora vivida
Presentes para dividir o estouro da chegada
Da onda na praia,
Como um 'u' ou um 'a' que a gente encontra
Da palavra dividida
Eles a fração de Deus
Para Deus não se fazer mentira, nessa precisão
De métrica e companhia

27.9.11

De olhos fechados

Me leia com os olhos fechados.
Somos todos iguais aqui nessa casa de portas vedadas,
onde sós e nus,
nos vemos mais que no espelho do outro que nos lê.

19.9.11

Fotografia

Escrever é como fotografar com os olhos alheios,
é permitir o enquadramento pelo outro,
é deixar a composição em outras mãos, ou interpretações.

É de fato se fazer retrato em ação, ali paralisado
na face de quem agora só me lê fotografia.

Nunca temi morar em nenhuma retina, tampouco me negarei
a enfeitar móveis com passado.

Molduras ciliares me encerram.

29.8.11

Escalada

Quem disse que é normal ser normal?
E que vamos de alguma forma conseguir algo,
seguindo o que os outros falam ou sentem?

Na maior parte do tempo estamos fazendo escolhas,
sem nem sequer conhecermos as consequências.
Atiramos o dado do destino só por um segundo e tudo muda!

Insistimos que tudo deveria parar e ser.

Mas se então se faz, a monotonia é inevitável.
Vem o desconforto e lá vamos nós, para um desembaraço
de sorrisos e lágrimas.

Até que percebemos que o fundamental não é isso?

É podermos mesmo rir, de felicidade e vontade, até doer a bochecha
Assim bem largo e forte a ponto de contagiar a todos!

O mesmo não vale para o choro?

Bom é chorar e de verdade, como se fosse o último,
Como se tivesse sido esquecido, num guarda volumes por alguém,
que nem vem te buscar!
Numa rodoviária distante, sozinho...

chorar de soluço, senão não tem graça, não vale, é fingimento.

Não é uma beira de abismo o que precisamos sempre?

Pulamos e escalamos a montanha, hoje sorrio no salto
Amanhã me lanço de tédio, depois subo como conquista
Volto sempre!

Mas, a vida não é sempre isso? (...)
A vida é não parar e a gente acha que sempre busca felicidade.

Quando na verdade...

A gente busca mesmo é passar mais tempo calmo,
mais tranquilo, apreciando a vista da montanha que subimos.

23.5.11

Quebra-cabeça

Hei isso aqui não é receita, tampouco tem sentido as críticas,
E não faz a menor diferença saber escrever.
Isso aqui é vida, a gente rabisca ali, para ler lá e depois
achar que entendeu às avessas e escrever de novo, mas agora tudo diferente.

Nada aqui está acima ou abaixo do mal ou em busca da razão acima de todas
que derrube todos os verbos com a verdade da sabedoria, isso é mentira.
Se nossa escrita tem por consequência falar aos nossos ouvidos o caminho
de entendimento de nós mesmos, oras se vê-se quebra-cabeça desmontado
falará das peças e não dá obra.

O que penso é que há um céu em uma peça que o componha, infinita quanto o todo,
logo dela falaria das nuvens como se o céu todo fervesse nela, não?

E de quem não é a dor de toda alegria e de quem não é a alegria de toda dor?
Somos essa repetição e quais as palavras que nunca foram ditas?

Somos mesmisses, exclamações, choros, indagações, somos esse coletivo desajustado,
mas a busca não é por alinhá-los ou correspondê-los, é senão por harmonizá-los,
fazer com que as pernas e os passos sigam uma direção coerente com o que
reflete no pensamento.

Boa caminhada, não na escrita, mas nas atitudes, a gente também mente
para nós mesmos e tudo o que penso é que ainda assim a ignorância não só evidência
o tão pouco que sabemos, como é ela que rege o todo pelo qual nos apaixonamos.

A verdade e a certeza, são armas contra o épico de viver!

14.12.10

Eu quero

Quero uma mulher que seja guerreira e sonhadora,
Guerreira para reconhecer a batalha da vida e o cansaço de quem está em campo
Sonhadora para que vez ou outra possamos voar juntos
Uma mulher que tenha fé para contrastar com minhas ciências

Quero uma companheira, porque não sou forte sempre e muito pequeno no meu íntimo
Quero uma esposa, porque quero sonhar com família e aprendi sobre o valor da minha

Quero também, que ela saiba ser menina, amante e mulher
Ainda acredito nisso, depois de todo esse tempo, não pergunte-me como.

Que seja frágil, e sendo, eu me sinta grande ao protegê-la.
Quero uma irmã-mulher, que perceba que somos feitos também de defeitos
E que isso seja um convite a descoberta, que não precisamos mudar um ao outro

Quero muito uma mulher, que goste do convívio, mas entenda o espaço de cada um
Que a rotina a incomode, mas que isso não a faça fugir para o mundo
Mas proponha sempre a dinâmica mudança da conquista

E que ela, depois de tudo o que quero, me ensine a ver
que também preciso ceder a tudo isso.

Levaste minha calma

Eu fico perdido aqui
Onde quem sou, eu não sei!
Sou?
Quem?
Eu?

Cadê você?
Eu ví, você passou por aqui,
logo atrás de mim

Eu sei,
por que sem querer esbarrara na minha alma
levando toda minha calma

18.11.10

É preciso

É preciso

é preciso paciência,
é preciso sonhos,
é preciso esperança,

mas quando o vento do dia muda de lado
e varre a tudo como folha,

é preciso ter sedimentado a eternidade como espelho da alma,
para acreditar que o presente
é uma criança sentada aos pés de um velho homem

25.10.10

No meu jardim

Dê-me um gole de sua mulher
dê-me seu vício, seu desejo a pino!

Arranca-me de dentro de mim!
Esse homem que perdeu seu próprio encanto
Força-me, prostar-me-ei ao seu desejo
se de mim, me mover...

Pois a cada encanto simulado
a cada desencanto partido
me envolvo nas palavras permicivas
de um amor, de um desatino

Só para ver brotar no meu jardim
uma planta com nome e cor
E assim ao cuidar, lembra-la e chamar de minha

23.10.10

Estrelas

A simplicidade é a genialidade da poesia,
afinal você é essa imensidão toda e ainda assim intocável.

Essa abstração do inverso de não estar.
Estar só é estar demasiadamente acompanhado de som,
cheiro, sentido...

É olhar o amor, só para ver.
Apague às luzes ao me ler,
leia estrelas.

19.10.10

Sorrisos

Sábios são os sorrisos que dormem no úmido de teus olhos
Escorrem pela face clara de tua retina, assim suaves
E de alguma forma aconchegam-se nos becos de teu passado

Sorrisos sonham acordados com tua inocência
Indecentes, roubam tua vista e a olham por dentro
Justo quando teus olhos ignoram o mundo lá fora, fechados

Já me perguntei se sei dos meus sorrisos todos que moram em você
Você sempre fala de rosa, coração e espinho
Eu ainda nessa infância de gente grande, falo de pulmão, olhos e ouvido

Você finge saber-me tão perto mas é fato de que nunca nos vimos
eu ainda sento no meio-fio, à esquina da vida

Sem vê-la, tu doas teus sorrisos todos
Que guardo sem saber

15.10.10

Eu ví!

Eu já perdi tudo, até essa escrita que você concede
Joguei ela aqui e ela escorre, entre seus olhos
Como escapara de cada um dos meus dedos
Perdi você, não em mim, mas por sonhar em ter!

É fácil perceber que o reflexo da vontade
É da frustração a face
Favorece à minha desordenada ordem sua
Assim tão inteira e segura na rotina,

Vai me dizer, você não viu perder o sabor?
Você não me viu, perder o número do seu abraço?
Seja sincera, eu perdi a medida dos seus sonhos!
Você não me viu acordar quando veio dormir?

Mas me viu olhar,
Molhar os olhos com a dor
Eu ví!

14.10.10

Vermelho viscoso

De alguma forma pareço ancorado no seu porto
Eu quero te espantar ou fugir, correr
Mas a minha alma não acompanha
E vivo essa luta com meu corpo

Parei em você,
Ainda que tenha mil gostos a provar
A certeza de ter colhido um fruto na árvore da vida
E conhecê-lo o sabor,
Não me cede mais que a dúvida, nunca o interesse humano do desconhecido

Vai ver a alma se preocupa com o tempo, a segurança
Do que com a calunia da juventude eterna, de sempre se lançar ao mar

Vai ver viverei em você tentando fugir de volta
Longe alma, sendo apenas corpo

- Espera! Escorre algo no meu rosto, brota dos olhos... (diz você)

Use para ler melhor, a vida é mais borrada que clara.
Deixe embaçar a vista e me veja, pois clareza e transparência é mentira,
a vida é vermelha e viscosa.

5.10.10

Na esquina de um amanhã

É verdade, eu a perdi
Perdi você no meu amanhã, na minha insensatez
Nesse meu querer tamanho
Que o hoje me devora

Eu a perdi no meu futuro e isso já faz tanto tempo
E só porque sonhei que seria você
Eu lembro, olhei nos seus olhos e disse
É você!

Foi!
Foi até o meu amanhã
Quando sentado naquele banco na esquina da sua vida
A ví passar de mãos dadas com o acaso,

Passeando com sua liberdade prometida
Cem pássaros pelo céu
Sem passos seus, sentei
Sem passar, passaram vocês

Eu sofrerei sempre
A certeza de "ser" você
Por jamais ter sido

24.9.10

Mundo

Eu não tenho pra onde correr e o mundo é tão pequeno.
Não por que o conheça por inteiro, mas por poder conhecê-lo.
Olha lá a eternidade, se desdobrando toda no tempo,
no universo à frente de seus olhos!
E entre ela e nós, nenhuma intimidade.
Me inclino sempre mais a sentir-me em casa,
nas coisas grandes que desconheço.
Acredito sempre, que é de onde nascemos almas sem sermos homens.

23.9.10

Nossa sala

Você muda como o céu
Eu quente como o sol

Sem você não surjo
Sem mim seu silêncio,
é só silêncio!

Não me escute
Veja só a minha luz
Não me apague

Deixe-me pôr à sombra
das suas curvas
Me deitar por trás de sua pele

Entardecer nos seus olhos
A meia luz de mim
Até não poder me ver

Assim me fazer noite
A sós, na sala de nós dois.

20.9.10

Cisco

foi um cisco
caiu aqui, bem na minha vista
imprescindível graça
lendo sua farsa
seu jogo de letras
e só você me arremata sem explicação
para ser inspiração
pois amo, nada e coisa alguma quero de você
senão você com nada pra fazer
mas quase sempre prefiro nem dizer!

16.9.10

Michelangelo

E ele no auge de sua inspiração,
compunha suas palavras fortes,
em pedra

Tomava para si a sua folha branca,
o mais claro mármore, o mais pesado "papel"

E na sua fala, destemida ante sua obra,
retiraria os excessos, deixaria em relevo
as linhas, silhuetas de sua poesia

Dançar-se-ia, em breve, sapatiando nos talhos ao chão
Deslumbrando a vida que surgia,
O corpo que, outrora sabia, havia preso em cada rocha

Em sua cirurgia, minunciosa, desenhava leve
Feito Deus, quando faz uma montanha
Usando a mão como vento e os olhos como chuva

Esculpiu a eternidade em homem

E o preconceito esfria, na pele de seu desejo
Revestido, mas não vivo, do calor que lhe falta
No amparo solidário de sua solidão

Na sua intitulada perfeição,
Seu devaneio lhe visita,
- "Perché non parli?",
Ao rasgar a sua folha, pelo poema que não sente

Não há verso que componha, sua criação.

10.9.10

Lábios cortados

Você me arranca, me inflama
Foge, queima, se afugenta
E pra que, se não sou?
Se não vou?

Você é tanto e tão mais
Não sabe o que o seu vento faz?
O que o seu verbo traz?
Como seu homem nasce?

Existe onde, que não aqui?
Esse amor inflamado, viscerado
Bordado sem cor, sem arranjo

Te cato nos meus dobrados
Você me encontra nos seus guardados
Eu sou mais rascunho dos seus pulsos
Que escritor

Me atira do seu predicado
Prejudicado, pela ameça que pratica
Pago do mesmo mal que a sua solitária
Sinto cada mordida

Tivera eu a sorte de não saber, o gosto do beijo que roubo
Não que o tenha perdido, mas tê-lo oprimido
Censurado mesmo!

Só a quem dói o inverno,
prova os lábios cortados nas manhãs frias.

9.9.10

O que eu não entendo

Hoje eu não tenho medo, não por que não o tenha
Mas porque o desafio!
Hoje eu arrisco,
na reposta errada mesmo!,
não por sê-la,
mas por só termos dois caminhos,
um deles, um outro que não sei

É por que o tempo pinta o rosto e joga frouxo,
passando-se de vida
enquanto é só tempo para o coração que germina.

E não é de flores que qualquer paraíso é feito?,

enfeito então à minha maneira fina
de ser cinza
A de virar poema,
ser bebido,
virar bebida
Ainda que não haja tinta,
me sobra essa malha fina

E não é arte o que fica?

Deixo nome, estilo, graça
Você sempre me convence que não é de graça
Já se fez, ainda se faz
então vem a mim essa tortura da alma presa gritando vida
Num quarto pequeno de paredes e algumas taças

Em cada copo o vinho tinto da vida
Você brinda forte, me derrama, me inspira
Escorre com pressa no pensamento,
como vela que infla seduzida pelo vento

Para chorar meu baldio terreno vendido a qualquer preço
E cadê o seu olhar atento?
Já fui entregue,
Sem apreço

Justo quando estive em aconchego
Nos seus braços, sendo!
Sentado no seu colo, debruçado nos seus olhos
Varrido pela cor ferrugem da folha que na calçada se atira
Sempre no outono,
já hoje em dia,
se vê até no inverno.

Quando o tempo, se veste de estação,
para que não esqueçamos a importância de um só dia
A pergunta que sempre me intriga
Ainda que nem sempre a resposta eu persiga

Valeu à pena, respirar cada segundo da memória,
que se forma no segundo que o presente se degola?

Quando a casa está vazia e o pensamento tem fala
Se ouve o sussurro do silêncio, assim feito companhia
Pra mergulhar no mar refletindo sol,
de um jeito que só eu via
Não há maior beleza que a da harmonia

Os pássaros sabem mais de melodia por amarem
Simplesmente amarem à vida.
E você tentando me impressionar com monossílabas

Lido por ela

Você não sabe de nada mesmo.
Como eu poderia querer
Que soubesse o quanto eu amo você...?

É, você nada sabe.
E deve ter uma dúvida imensa disso...

Você nem acredita no que vivo,
Nessa prisão feita ao ar livre...

Talvez um dia
Você se coloque no meu lugar
Mas se o fizer,
Certamente fugirá para longe..
E me deixará aí...
Fria onde você está

Ah...
Você realmente não sabe...
Enquanto tudo que sei
É que vivo só por te amar...

17.8.10

A folha e ele

Parei naquele momento em que a folha caia
Segundo a segundo, dançando nos braços dele
Pensei que nas suas hastes haveriam mãos
E pude vê-lo segurando-a com jeito leve

Movia-se de lá para cá, caindo
Sua pele bronzeada do tempo
Cor de coisa seca, antiga
Foi então que pensei

O tempo que ele a esperou por este segundo
Eu testemunha
Da folha
Enamorada pelo paciente

Que a esperou cair em dias enormes
Fez turbilhão para tê-la em seus braços
E nada, mas chegara a vez
A vez do destino, própriamente

E o acaso me deu o tempo
Eu ví a folha
Que enamorada pelo vento
Pousou o chão

Há quem diga, que vale a vida
Esperar por um só dia
De amor puro
Disse o vento ao deixá-la em vão

O que somos

Às vezes temo ser parte daquele amor
que nasceu só para se ter conhecimento do tamanho e da força.

Que existe na distância, na solidão,
no frio e na dor
Mas jamais na realidade dos fatos
Do tocar, do sentir...

Um amor que vive de platonismo,
como duas estátuas que se olham no jardim da eternidade.

Nessas horas é quando morro na nossa história.

Em um final de filme...

Onde o lago é lindo e cada um olha de um lado, o reflexo do outro.

Só você me mata e me faz renascer.
Hoje sei porque acordei para morrer.

Agora faz sentido.
Nunca mais fui eu somente.
Eu só existo por você.
_____________________________
Escrito por Roberta Carvalho / Raphael Neves

6.8.10

90 anos

Aos noventa anos, quando fiz
Dei-me o prazer dos trinta
Aquela sedução acentuada pela aventura

Me lembro dos pedidos frente ao novo ano
Quis o mundo todo, numa golada só
Só que agora assim, de jeito estranho

Nada do peso e compromisso da vida dos adultos
Eu podia ser jovem, como criança à beira dos dezoito
Podia ser, só por ter noventa anos

Me dei a idade, calei os lamentos do corpo
Por saber que a mente é essa fogueira acesa
Incessante

E lá no sofá da sala
Decidi,
Trinta anos!

E nunca mais envelheci.

7.7.10

Minha estação

Qualquer planta se desprende das flores,
se queima ao sol até nascerem novos ramos.
Aceite, um dia venta e muda toda a cor dos galhos,
afinal existem as estações.
O maior problema é que a minha é sempre primavera
quando te vejo.

30.6.10

Sem nós

Vou te bebendo com os olhos
Vou tateando sua narrativa
Por motivos que a vida revelou

Vou dando sentido a achados tortos
Encontrando você em sua tinta
Devorando as lembranças que deixou

E a vontade me adentra até os ossos
Me percorre vadia
Nesse desatino de quem já amou

A pálidez da minha calma que enfeia meu ócio
Vem desse interim, se é, será ou seria
Do colo abrigo, do amor amigo, que não passou

E antes que me torne fóssil
Incrustado no seu passado, sem vida
Ouça do meu amor o clamor

Pois sem você sou foto
Com você sou coração, beijo, saliva
Sem nós, não sou

Sou ser, sem ser

10.6.10

Uma poesia escrita em silêncio, só o título

-
-
-
-
-
-
-
-
FIM
_____________________

Sua visita é sopro no meu silêncio!
Você me bagunça e o que estava certo em não ser
toma forma!
E nasce ao inverso
O verso
Do que não era para ser
Sendo silêncio

31.5.10

Depois de ser

digo da boca já viajada
que irá em breve ainda que demore
o tempo não se conta pra quem vive de poesia e conto
e antes que se despeça de mim, terás tido o meu todo
dormido com meu cheiro e provado do meu calor
e quando assim quiser, a estrada
estar nela como despedida
me terás, não no que fui presente
mas na saudade cultivada
antes da visita da boca viajada

28.5.10

Inesperado


Às vezes me sinto menino
Me sento no precipício da vida
Me mimo,
Choro no cume da mentira
É lágrima que escorre na brecha!
Entre o coração e a alma
encontra-se a folga dos olhos.
Escorrega.
Pinta e enfeita a dor.
Acaricia a pele fina
É água,
chuva,
é carinho de pai, mãe.
É de Deus a mão
torneia meus lábios
Tem gosto de solidão
Ela cai sozinha por sobre meu queixo
Segue a ribanceira da minha face,
enquanto me cerco de montanhas
É ela quem se atira primeiro
Do penhasco de minha moradia
Enquanto permaneço sentado
À beira de tudo que crio
Meu mundo de argila
barro, pedra e areia
É quase tudo fantasia
E eu aqui molhando os olhos
Esperando pelo inesperado.

24.5.10

Desfiladeiro

Será teu silêncio o escudo que tanto profana?

Será teu escudo, tua defesa, que revela tua voz
silenciada por teus medos?!

Será então, o teu temor à tua voz, e o teu
tremor a tua forma de sentir-me?

Não peques em esconder-se, peques por ousar.

Há mais aventura no erro que na captura muda,
sem o desfiladeiro empueirado do teu corpo
em queda livre!

19.5.10

Depois de morto

Qualquer dia vou vestir a minha alma de um extremista qualquer
lhe colocar uma cintura de bombas, engatilhada pelo meu dedo de carne e osso
e mandar ela pro inferno, assim bem suicida
e quando não quiser mais, além de mim, levarei tudo aos ares

Isso mesmo, minha alma explodirei!

E depois, juntados os meus cacos, me recolher
só pra saber se depois de morto alguma coisa aprenderei.

4.5.10

Copo de vidro

Quando sou eu...
Sou tão mesmisse, que quando me rouba é como uma criança,
Que pega um copo de vidro e o taca no chão e ri,
Por que, agora, de um ela fez diversos

________________________________

Quando me vejo escrito
Sou mesmisse, essa repetição que já conheço
Quando me roubas, me recrias, me inventas
Sorrio, ao encontrar-me
Como uma criança, ao lançar um copo ao chão
Não por quebrá-lo, mas por fazê-lo em muitos

Há outro(a)

E seu beijo era doce
sua loucura, era meu torpor
era seu braço meu acalanto
seu nome meu encanto

sua boca então fez-se faca
arma branca sim
enterrando-se em outra que não minha
cortara o peito meu

esse braço que me abraça
é meu sagrado manto
castiga-me com as chicotadas dos dedos leves
e me arranca o sono com a textura
do lodo, sujo, de outro corpo

e quando me tomas, meu corpo
que não pertence a mim e nem o seu que é meu
somam-se, há um impulso
esse de carne, parece haver sangue e dor

e bebo esse fél na fonte de sua miséria
e tudo o que tenho é o resto do que não querem
meu exílio é ser sombra de mim,
na pena de mim mesmo

morro sempre que volto a ser seu
e hoje, encarno um corpo novo
o que me visita, e me encanta
por não ser você,

enquanto visto-me de algoz
na armadura feita por suas vãs atitudes
e assim, tomo o corpo que se entrega
e dormimos como cumplices

e te verei à noite, para comemorarmos
a morte de nós mesmos.

14.4.10

Folhas

Só porque é mulher madura, é fruto, mas é árvore
É doce, mas é ainda flor, folha e dança em vento forte
Enquanto me amparo na sua sombra, me abraço a seu corpo
Me escondo e você, só deixa cair as folhas

20.3.10

A sós

Na sua própria escravidão
O homem vai pelo seu caminho desenhado
E o destino não é mais que, ao normal, desdenho

Sujeito homem, que se veste de pele
E lá pelas tantas, aponta suas diferenças
Tão iguais, revestindo sempre a pobre caveira

Dos fortes e sábios, a ignorância é um apetite
Soberbos homens primatas
Antes saber não existisse e que fadas são encantadas
E assim, homem, tu tomas as fábulas

O medo, sempre uma grande caixa
E tu e eu, somos por quem senão nós?
O egoísmo engole da dor, cada sinônimo, palavra por palavra
E não reconhece o eu que guarda

Tão distante, da distância da solução
que a vida lhe bomba no peito, lhe infla o balão
Se não fosse, porque um coração?

E o homem que reconheço, se perde pelo medo certo da morte
Covarde que se inflama e se despede do mundo
Pois o tempo que lhe guarda segredos, já fala em razão
Que de certo é a morte
E a sede, o desejo da vida

Viver sem ter ninguém, para não escolher a quem
E ser do mundo, para tomar pela saliva
O gosto da noite e degustar até o dia
Preso no peito, assim, grita
O que ficou de lado, no ser embaraçado

Lá nas ranhuras, do pretérito imperfeito
- Que amar, não é defeito!
E se por um, que invada a todos
Porquê, se lhe veste a veemência
A presença é controversa
No tempo em que gira tudo

Já corroemos o absurdo da clareza
Vivamos a sós, onde só tenhamos nós
Eus tão miseráveis de mins
Como gafanhatos devorando jardins

16.3.10

Se sim...

Qual a loucura do homem que diz não?
Ela seu sonho, esse pensar inato
O convite é para vida, pro amor
E sua rotina esse desbarato, moleque feito de dor

A diferença do encanto
com o chapéu debruçado à porta,
ao quebrar à força o portão,
E quem não vive o disparate acelerado de um coração?
Me diz, a quem não adoça a paixão?

E do beijo que leva, esse sem ter sido dado
Mas devo agora, a um pirata qualquer, umas mil quantias de puro ouro
só por não ter praticado o roubo
Minha tortura navegante, carrega minha boca

Pra qual rumo vai meu entrelaço
Vadio o meu pensar, agora deixa passos na grama
Um jardim qualquer na memória de criança
E o voo do pássaro, sempre será o que fica de mais lindo

Deve ser então, louco aquele que diz sim, não?
Ter sua alma brevemente roubada ali, bem na roda do mundo
ou o desacordo dos braços, numa busca por espaço
Deveras fosse ela mulher, mas sempre despe-se feito paixão
Jardineiro das letras, palavra plantada, virá verbo

Teus olhos não me veem
Mal-falados versos imprórios, censurados pela razão
A tormenta do louco, delírio do são
Podem me falar, que se fosse sim pra sempre
pra sempre, não teria fim

18.2.10

A festa de ser

Da vida que levo, só sei do inverso
Do que não foi, invento pra criar conceitos

Do que sou, um pedaço que você deixou
Esse sem ver, que tomo sem merecer

Do carnaval deixo a máscara, o chapéu
Da festa, o confete a serpentina, desenrolados, largados

Mas no instante, não no chão
No ápice da festa, levados pelo vento

O movimento, a explosão
O canto da multidão

Sou do malandro a ginga
Do corpo a expressão

A intensidade musicada
A alegria de quem vence, o choro do perdedor

A intensidade, sem nome, raça ou cor

16.12.09

Calunia

Eu vou escrevendo os meus borrados
meias verdades, exíladas da memória
sem pretextos, violões artesanais

é vivacidade literária, esse que, à frase dita
da pura verdade anunciada
ainda que a calunia, seja minha visita

a primeira, na manhã que se aproxima.

irá gritar seu nome, com minha ira
enquanto me desprendo da palavra escrita

nem é meu, é dito
verbo engolido, esse Não rebuscado
que me lança à boca, para engolir amargo

enquanto a vida chega de mansinho, tocando cordas de aço
vibrando seu cochicho, enganando o acaso

para encontrar olhares com o sol
suspender as aves, como se fossem papel
virando o girassol
levando as nuvens ao léu

cantando promessas vivas
adormecendo a minha fome, clareando teus olhos
me fiz infame, por sentimentos tortos

esfarelei a melancolia, disfarçando lama, moldando argila
para ver o crepúsculo do meu muro
nas rimas de suas sílabas

9.12.09

Chuva e vento

Ventania de sonhos
soprando segredos
esperando as correntes do norte
inflando veleiros

o ar que chega de longe
vem quente do Sul
abraça teu corpo
te veste de azul

dançará
teus passos
a chuva fina
que beija o vento
em teu dançar?

costeando a terra
no meio do verde do mar
barco perdido
em curvas e fio

é beijo de chuva
com gosto de vento
na pele do sol
tempestade e relento

conto da brisa
virando farol
querendo tormentas
procurando tua ilha

palavras cheias
tornados de amor
tornando passáro
água e calor

7.12.09

Quem sabe?

Quem sabe não era para ser assim.

Quem sabe se não é para ser assim mesmo?

Quem sabe não conta,
mas sorri de meu presente aprisionado

Dos dias atordoados, por cada texto que não finda!

Quem sabe, silência
cada oração que surge, morta, pois lhe arranca o verbo

Quem sabe, degusta de meu desejo em sargeta!
Não se pronuncia e nem alivia,

Derrama em minha vida, a ignorância revelada
que lhe arde, e ardeu, no dia em que falou quem sabe,

Que assim era pra ser.