Alguns guardados, rascunhos, pedaços... Achados em um ermo porto, do outro lado, lá onde a carne não abriga espaço. Faz-se alma e escreve pela perturbada mente, que mente. Escreve-se aqui, o presente passado. O passado em presente.
21.1.17
Erro cronológico
18.1.17
Bruxa
17.1.17
Céu
4.1.17
Circo
Sua, toda essa minha alma Vasta, insegura, pequena e aflita De se um dia saberei cuidar da sua, alma minha
Eu que desconheço os atalhos da escrita Dou na vista, Esse sentir, da certeza em ti Do amor da minha vida
Me embaraço nos sentidos Sou equilibrista num circo de saudades Trapezista de sonhos vivos Nesse picadeiro de verdades
19.9.16
Do silêncio
O gosto do silêncio é um quê de doce
O doce é um provar a saudade pela boca
É conseguir mastigar o tempo com prova
Não com o tédio velado, ou a alegria maquiada
O silêncio é o verso da vida
Cantando sua rima
Falando onde te faz casa.
28.6.16
#inspirações-003
Ai Que Saudade D'Ocê
Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade de ocê
Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim
E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê
22.6.16
Trama
Na minha trama
Você olha a dama,
Perco sua mão
Tomo seu silêncio como gratidão
Bebo certezas tão minhas
Que minha escrita me convida
Ao meu mundo com ela
Tão íntima
Se faça por extenso, poesia
Na cadência de palavras sozinhas
Nessa imensidão de silêncio
Quando quem me tira pra dançar
É a lembrança,
Quem saudades têm, ciúmes
Quem tem raiva
É pai dos dois!
E assim dorme
Na nossa vista,
Palavras de nós dois
21.6.16
Sépia
que eu vou colar essa foto no meu quarto
na porta do meu armário
só pra lembrar o mais belo dos seus lados
faz um sorriso de maldade
escondendo uma fatia dos lábios com uma mordida
um olhar de serenedidade
só para eu lembrar de toda nossa intranquilidade
vai, espere ai, nessa fatia de luz e sombra
um filtro sépia de presente
que faça parecer antigo, o nós no hoje
nesse seu sorriso amarelo, escurecido do escuro de mim mesmo
me cole ao lado da sua foto, na vitrine dos meus olhos
para que a receba na sala do meu corpo
meio ofuscado de qualquer cor
para me colorir de teu amor
ser sua fotografia,
enquadrada no verde dos olhos que se fecham como lente
para dormir em minha frente
os sonhos de futuro, filtrados no nosso presente
20.6.16
Camaleão
Acho graça, sempre ter graça para ver
Acho graça, ser o mesmo desvirtuado viciado em letras
Enquanto a sua graça, se virtualiza de deixar de ser
Assim camaleão,
Acho graça, da graça que assume
Por achar que a graça antiga não tinha graça
Deve ser por sua beleza ser de graça, que vai ver, não via
Mas vai lá fazer a graça de deixar de ser
16.6.16
Feito canela
Dança no vento
Desafia o eterno em seu passo breve
Laça o querer em seu próprio tempo
Bailarina da liberdade
Não sei se gira ela
Ou gira o mundo,
No redemoinho de sua afinidade
Aprisiona a beleza em si
ou a beleza lhe doa os olhos
de quem a sabe definir?
é verso solto
sem rima ou contorno
ela é fotografia
12.6.16
Melancolia
Há algo em mim que sorri alegria
Nesse absoluto luto, fictício
Que chora uma eterna melancolia
23.5.16
Mundo de criança
Ai do mundo, se não for igualzinho ao seu sonhar
Pois onde você mora, o sorriso é brisa e vento
E toca a todos com seu jeito de voar
Que seus sonhos alcem voos como as borboletas
Colorindo os olhos de quem perto esteja
E que você se saiba o jardim,
Filha da beleza como campos de jasmim
Que seu maior brinquedo seja a vida.
As palavras e a escrita, uma das suas melhores companhias
Que o estudar, seja a sua escada
E que o céu e as estrelas tenham um gostinho conhecido de casa
Que seus amigos sejam seu maior tesouro
E que você descubra que a amizade é a maior riqueza entre vocês
Que o tempo seja seu dinheiro
E que você saiba sempre gastá-lo muito bem
Que esse presente, seja embrulhado e guardado na sua lembrança
Como uma casinha, num vale todo verde, de criança
Que deixei para você visitar sempre
Ao fim de uma estrada de barro, bem diferente
Onde é sempre seu aniversário
E a festa aqui
É a alegria de vê-la sempre contente.
17.5.16
#Inspirações-002
Legião Urbana
Você diz que tudo terminou
Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou pra você
São só palavras, texto, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
Da peça que interpreto, um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos
E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor,se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho
Baldio é o meu terreno e meu alarde
Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade e você com outro alguém
E você diz que tudo terminou
Mas qualquer um pode ver
Só terminou pra você
Só terminou pra você
Só terminou pra você
2.5.16
Apontamento
Com um tiro desses que saem pela culatra
Como dos três dedos que apontam para nós,
Que eu tenha aprendido antes,
A importância do perdão!
21.3.16
Outono
Nesse seu passar, são suas, as folhas que caem
Você infligi ao tempo, um abraço de vento
Desfolha a vida, renova dos galhos às nossas despedidas
Todas as minhas certezas, descoloridas com a sua vinda
Na minha tentativa de entendimento
Uso eu, no seu dia, estação e poesia
4.2.16
#Inspirações-001
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
aqui dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres estragar o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão dormindo.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer por completo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e você?
27.1.16
Fantasias
Quantas fantasias emocionais
Somos tantos
De qual dos meus
Me sei mais?
Desse que nasce agora
Ou desse eu antigo
Que não vai embora?
Sou eu mentindo pra mim
Ou o mundo que já não me convence mais?
22.1.16
Tons de cinza
Sob seus tons de cinza,
Esse olhar rente ao seu, que a pinta
De preto e branco
Você veste, esse sorriso de sombra
É luz na minha noite
Desse contraste da sua tinta
A pose é sua,
Metade dessa minha sintonia
De ver no seu posar,
Poesia!
4.1.16
Sem se despedir
Quando lhe é retirado o direito ao adeus, a saudade escreve na alma um desejo de presença que não aceita despedida.
14.12.15
A quem falo de amor
A quem falo de amor, muitas vezes não me escuta, pois nem sempre pode me ouvir
A quem entrego o que sou, não sabe o caminho, só conhece a medida do doar-se em precisão
A quem me dou, sabe, mesmo sem saber, que embora seja sempre água, ha diferença entre,
Cobrir os pés e cobrir o corpo!
Quando falo eu, de amor
Não me escute, leia meu verbo
A quem falo de amor, falo com barulho nos atos
Silencio à boca, só a abro pro beijo
A quem falo de amor.
4.11.15
Colheita
Às vezes planto ausência,
...para colher saudades.
Mas de alguma forma semeei indifereça
...e acabo por colher descaso.
30.10.15
Jogo de dados
nos demos de presente o descaso.
O trabalho e a conquista, como recompensas
daquilo que recebemos por pura sorte
20.7.15
17.7.15
Brincar de mentir
e não há uma, que não seja verdade
Você brinca com a verdade
e não há uma em que se possa acreditar
10.7.15
Desgosto
Perdi o gosto pelo futuro
Estou preso às minhas melhores lembranças
Implorando-as, uma qualquer coisa de agora.
8.7.15
Quem mata?
Há quem fale de deus e mate
à sangue frio mesmo
Empunhando preconceito, como arma
A indiferença, acredite você
Mata!
O ladrão, morre se a gente vê
nos dias de hoje.
Quando se cala
esse gole intolerante
De que a desculpa serve como ladra
quem mata?
Quem acredita, que se paga com morte,
à ignorância de não ensinar,
7.7.15
Pontos
Que ainda lhe sobre doçura
Quando o mundo lhe for amargo
Que ainda lhe sobre um som
Quando o mundo for silêncio
Que sobre lembrança
Em dia de esquecimento
Que sobre um sorriso
Em dia que formos chuva
Que nos sobre um pouco de humano
Quando formos tão feras
Que sobre em nós
Um pouco de eu
Que sobre letras
Para tantos pontos
6.7.15
Sol
foi por ter me distraído com o tempo,
vai ver é assim também com o amor.
19.6.15
Passível de mentira
É esse silêncio rochoso
É essa certeza indelicada
Com seu efeito doloso
É passível de verdade
Todo meu desinteresse interessado
Toda minha vaidade
Da sua ausência, duas letras e um nada
Das certezas, uma palavra nova mal colocada
De todas as mentiras dissertadas
Coincidências descartadas
É passível de mentira
toda rima que culmina
Nessa blasfêmia toda minha
Para os verbos insaciáveis
Minha loucura justifica
Toda uma razão que rumina
Doses de desejos irrefutáveis
16.6.15
Indiferença
Não faz diferença!
O seu sorrir, que o meu saber desconhece,
Não faz diferença!
Que diferença faz, o meu agora?
Agora?
Agora não faz diferença!
Desacostumei de sua presença
Qual a diferença?
Desacostumei ainda, de sua ausência
E se não for verdade,
qual a diferença?
Não importa mais
Sobrara nossa indiferença
15.6.15
Sentido distorcido
Há uma distorção, no meu não.
Amor é um verbo que não se conjuga no passado.
Meu pretérito é um talentoso nato
Quase vive, nos meus agoras
A hora não encena, seus minutos
O fato, fotografado
Revela um arrastar de rodas,
Uma dissonância, com o barulho do seu silêncio
Que eu engulo à seco.
Um bêbado de memórias
Absolvidor de certezas condenadas
Às eternidades de seus percalços
1.6.15
Seguros, seguimos.
Errado!
Não sairemos daqui, de onde pegamos o trem andando, antes de escolhermos a estação adequada para descermos. Parece que a viagem virou um exílio, não têm passageiros no vagão que entrei. Exilados do amor, nós encontramos uma galeria de prediletos das dores, sem a força e a fé do impulso de tomar a vida pra si.
Seríamos tão mais felizes, dois passos à frente, na chuva mesmo.
- Você já foi feliz na chuva? Eu já!
Quero dizer de quando a felicidade é tamanha, que o frio vira motivo de riso ou desculpa para um abraço mais apertado, não esfria, o molhar da roupa não incomoda, mesmo que ainda lhe falte uma condução até em casa, ou uma caminhada demorada.
Mas se vamos sair daqui? Não, acho que não! Perdemos para a repetição dos dias, perdemos para nós, perdemos para o nosso começo, não era pra ser assim, mas agora que já foi, pode-se somente acomodar-se no que é, pois ser mesmo, não pode.
A gente só está na composição, torcendo pro maquinista não sair em qualquer estação, ou que o destino final, por sorte seja o mesmo de quando embarcamos. Ninguém pensa em descer, por que lá fora faz frio e as estações andam vazias demais, talvez tenhamos que aceitar, que mais cedo ou mais tarde, toque uma espécie de sinal e que saltemos com um adeus perdido em mãos, ou quem sabe, seguiremos aqui, do lado de dentro, nesse trem vazio, acento duro, mas seguros. Seguros! Só ainda não sei bem de que.
28.5.15
Clava da vida
De qual mentiroso são todos os dias pares
A quem pertence esse dizer
Que a felicidade é provada nos ares?
Com esse cinza que decoro meu ser
Se sempre sorriso, qual então sua graça?
Se sempre tristeza , que alegria mereceria?
Que amar, não fere a dor de não ser farça?
Que farça amordaça a felicidade que seria?
Da tirania da vida, ninguém escapa
Ora, se sabes-se vivo, que há de mistério?
É de sua clava,
todo querer, sofrer seu demérito
Que tolice a de ofertar-se ao tempo
Um dia, o mais antigo
Terá dito, que fizera dele seu amigo
Para fingir ao fim, empenho
Então, guarde seu palavrório
Esse júbilo falacioso
Hoje eu sou crematório (de mim, é verdade)
Uma cortezia cinza de um morrer audacioso
Ceifadora
Tem dias que a natureza deveria ser carinhosa com a nossa ínfima expressão de existir, nos tirar a vida como uma mãe que nos dá colo. Carinhosamente, até que os olhos se fechem. Tem dias que morrer me soa mais como um sorriso que como um adeus de qualquer tipo.
18.5.15
Desconstruindo
De esticar a vida pra entender a falta
De grudar até ser composto por parte do outro
De justificar com encanto a razão
De abraços,
De olhares,
De gostos
Fatias de mim
Que o tempo leva como rasura
De um advir perfeição
Essa que gruda com o vento do sentir
Na superfície desértica de sua pele
Como se fosse, das suas pintas, o contorno
Tempestade de mim
De querer ser
Levado como areia pelos seus pés
De que um dia, você passeou em mim.
6.4.15
2.4.15
Mil preces
Que se abram, mil portões
Com o seu silêncio
É nele que dorme a fé
Da senhora, que a saudade abate
Ao amor que foi dormir lá fora
Da dor que não cala
A felicidade que ficou
Antagônico ao ausente que pareça
Ela tem pressa
que atendam sua prece
Distraído
Tropecei no seu sorriso
que ao lhe descobrir
4.2.15
Culpados?
Foi do meu acreditar que se apaixonou por elas
Não foram suas faltas, foi a preferência
Eu não mudei o sabor e talvez você preferisse algo mais amargo
O tempo foi uma das vítimas, era novo demais
Engasgou-se com tantas histórias pela metade,
A realidade deu um tiro no futuro na frente dos nossos olhos
Alguém sequestrou a esperança e como resgate nos cobrou mentiras.
Me lembro do choque ao encontrar a certeza.
Era ela quem sussurrava verdades que fingia não saber.
Não, a culpa não foi das suas promessas,
Foi do meu acreditar, que gostou de cada uma delas.
Descobrimos que a saudade tinha sua irmã gêmea e que nós a separamos
A convivência com ela sempre foi a mais difícil.
Foi cedo que ela fez amizade com a loucura,
E para que como irmãs se vissem, guardavam segredo.
Hoje eu ainda lhe dou abrigo, faz tempo que não vê sua outra metade
Envolveu-se com um tal de silêncio, agora já o recebe em casa
A loucura anda se consultando com a razão, já não se falam tanto
Mas a culpa foi mesmo do meu querer
Ele insistiu em suas promessas,
Eu só quis acreditar em você.
21.1.15
Falta
13.1.15
A tristeza tem sempre uma esperança
24.11.14
Retalhos - Humano - #2
19.11.14
Rotina
14.11.14
Como estrela
Sabe aquele mirante de frente para uma beleza inteira?
Deveria ser criado um só pra ela.
Com fundo de luzes e lua, de sol até estrelas.
Nem ela, observa-se tanto,
Sou um telescópio inteiro apontado para seu ser.
Um louco ao encontrar brilho e cores numa estrela distante.
Onde só resta o observar, a imensidão do céu e o devaneio.
A sós com cada raio de luz que chega,
Pois aqui eles chegam com atraso,
A fonte segue à risca a física
É um ver no presente o passado
Essa minha lente distorcida
Essa minha mente que faz da saudade prisma
Sentado aqui nessa beira de caminho
Recebo cada um dos seus raios
Que ainda escolhem por brilhar na minha vista.
Retalhos - Nós perdidos - #1
10.11.14
À deriva
23.10.14
Travessia
um terço é coragem,
outro lábio de harmonia
para falar de saudade
a quem já viveu de espera.
vou fugir da noite
recostar a cabeça no peito de um sorriso
acompanhado de passado
que é pra não acordar
a dor que dorme
na beira do caminho
4.9.14
Trovões
Recebo rosas roubadas em resmas de rimas
Lhes digo, durmam durante meu dizer
Pois tardo trovões tirânicos
Como sonhos sonhados sãos
Em plena luz do dia!
25.6.14
Segredo
Ela um menino
Ele sentiu vontade de se aproximar
Ela apenas não quis se esquivar
Ele veio falar dele
Ela tinha o que escutar
Ele encontrou no acaso um espelho
Ela se desencontrou ao se achar
Ele fingiu não ter tanto a dizer
Ela ria das pequenas coincidências
Ele marcado pela vida
Ela a marcar a vida dele
Ele se perdia em conhecê-la
Ela se encontrava por se perder
Ele pele e beijo
Ela tempero e ímpeto
Ele desejoso e arteiro
Ela de vestido e vestida de olhar
Ele inventando meios
Ela dando um jeito de se levar
Ele intensidade
Ela intensa em se entregar
Ele hoje é saudade
Ela um segredo a se guardar
17.3.14
Dia de Poesia
quando da vida, quero um contento
A poesia não é meu recurso, é ela quem me toma e abusa
quando para ela a causa é justa
A poesia não é meu brinquedo, que eu tomo a revelia
e marco no seu olhar a minha visão distorcida
A poesia é que me usa, que a compreensão só me resta
para justificar a loucura de ser tomado por ela
A poesia, é uma razão da vida que a própria vida
não precisa
A poesia é um pôr de sol sem fotografia, sem grafia,
é a abstração do entendimento
uma ideia que a palavra desperta depois de lida
A poesia é o espelho dos sentidos,
sem dar nenhuma forma ao que se revela
11.3.14
Acredite
10.3.14
2:14 - AM
Ele grita,
- Uma hora da manhã!,
num silêncio retumbante, acredite.
Ele estampa na minha cara
E mira o tempo no entendimento
Minha insônia dorme sua madrugada
Enquanto eu a aprecio e acalento,
Ou eu dou voz a todo momento
A um velho amigo que anda trôpego
Batendo meio torpe
Sem fôlego
Me pedindo um pouco mais de tempo?
Sorte tem o homem que a insônia desperta
Acorda e vigia de longe o sono
E ele sem saber, vítima de um adiamento
Sonha sem querer
Que quando acordado
Ela lhe rouba o tempo em pequenos ensaios
Ou lhe toma o futuro inteiro
Com seus presságios
Já não importa tantos anseios
É o nosso estar presente o que damos
Hoje sou eu quem não adormeço
Pois é quando o tempo voa
Que vivo todos os meus intensos!
6.3.14
...
Você busca abrigo em antigas marquízes
Eu me escondo numa nova vírgula,
Enquanto a sombra torneia nossos deslizes
Você faz cair folhas passadas
Agitando uma velha árvore
Pintando a minha calçada
Dessa tristeza de mármore
Pouco nos importa, além do que era posse
Sobrou de mim um livro lido
De você, um desejo de sorte
Sabe aquele corte?
Passou, remediei com soro e gaze
Sabe aquela frase, que você gostou?
Eu guardei com tudo que sobrou
O que não passa mesmo é a gramática
Quando eu falo de pronome possessivo
E você usa livre como adjetivo
Nessa nossa errante temática
Vai ver foi sem querer
Que a gente não deixou de gostar
Nos apertamos num encaixe de ter
Para esconder em qualquer lugar o dar
Vai lá e sorri na cara dele a beleza que não soube extrair
Que eu vou ali,
desmedir o beijo que sempre foi seu
Abraça-o tão forte, mas sem mentir
Que eu vou ali,
dar o meu amor como se não tivesse conhecido o seu
A culpa é mesmo do nosso português,
pois o eu não combina com você
Mesmo que você, combine com aquilo que era meu
18.2.14
Não
É aquela placa de atenção,
é a curva no meu caminho
É o abismo no deserto,
É meu destino,
Incerto
Ser for não
12.2.14
Em um só, tantos de mim
Há algo em mim que silência
Há algo em mim que fere
Há algo em mim ferido
Há, há sim!
Há algo em mim que sorri
Há algo em mim que chora
Há algo em mim tão ambíguo
Que sua existência revela seu inverso
Há em mim algo
Há em mim vazio
Há em mim,
Que ao existir
Não há
por haver tantos,
Em um só,
Tantos de mim
7.2.14
Recomeços
Infinitos de mim mesmo
Tardo, confuso, falho
E lá vou eu
Desgarrando de tantos meus
Juntar novos achados
Atar novos laços
Para não ter de recomeçar
Por mais um breve espaço
Atração
modificando-o pelo que se é,
Quando se sai, o meio todo se revela
As aproximações, não reagem por efeito impositivo,
São as mesmas exercendo a mesma foça,
Apenas agora, não sofrem a ação da sua energia
Logo, tudo tende ao que era, como um reagrupamento natural,
mostrando somente o que realmente somos
E aquilo que lhe atrai, lhe revela
Vivos
…Acima de qualquer coisa, supere-se! Supere não somente a isso, mas a escravidão do pensamento que se acostuma com o abater-se, com os nossos pedaços. Una-os, erga-se…
Não é a morte o limite da vida e sim da nossa ignorância. Não é a dor o limite do sentir, e sim o não sentir o limite de sentir dor.
E até que qualquer pior que se imagine chegue, tenha nos dias os apelos da ignorância: viva-os como se tudo fosse saudável, como se não se fosse nunca, como se não sofrera de nada.
E não imagine isso como uma mentira, pois podemos ferir o corpo, agredir o físico, mas jamais fragmentar a alma. E essa alma ainda está ai, tão viva quanto a qualquer um de nós.
Não se prenda ao tempo, ao que dirá qualquer quadro. Faça uso do que puder para amparo, mas não tome tudo como verdade. E viva, viva, viva.
Ao destino, ao que vier a acontecer, dê sua ignorância de todo o coração.
12.6.13
Sorte
Sorte dos amados, que têm na distância dos desagrados, saudade
de uma certeza singular
Sorte daquele amor, que sendo amado, sabe-se morno e preso à rotina,
ensolarado pela repetida presença
Sorte dos amantes, que não sonhando, vivem, como se dormissem a vida
Sorte daqueles amados, que tendo a quem amam, mesmo sem o sorriso sorrindo,
são amados amantes
Sorte dos amantes
Amados
21.5.13
Ponto Final
Me perguntaram certa vez.
- Como se desmancha um ponto final? Rabiscando?
- Não! - respondi.
- Acrescente mais dois pontos.
5.3.13
Fraguimentos
--
Me rouba, sentir e alma e fico nu de mim na sua ausência.
--
Deixe-me ser a sua fuga, a sua incerteza segura, sua insegurança perfeita.
--
Posso desejar o seu impulso feminino, a sua insanidade permissiva, um vulcão de prazer em elo sedento de ousadia!
--
Com a sorte, com a noite em meio as ruas, andarilho de costume.
--
E um dia percebe-se que as palavras jamais perdem sua vida e diminuí-las em valor, é o mesmo que nunca tê-las sabido ler.
--
E sendo eu escritor, desses impulsos de alma, jamais deixarei de viver suas intensas armadilhas, uma delas, o amor, esse da paixão do desejo, a do amor de amar.
--
Que sua viagem seja sempre seu abrigo e que sua morada, não passe de seus pés.
--
Sei que a perdi, mas quem sabe um dia, o amor vença ao tempo, o sonho vença a realidade ignorante que joga a mentira sempre, de que nada é pra sempre!
--
Se teme por guiar tuas próprias pernas, não reclame da viagem, no cavalgar de teus medos!
--
Do pecado da carne, conheço quase todos, dos tropeços da mente vazia à liberdade.
...em meu próprio escrever, nesse vulgar homem que profana o ver, na escrita fria que nada fala...
--
A alma é uma montanha, sua erosão ocorre pelas lágrimas de teus olhos e pelo vento de teus medos, a esculpes pelas tuas emoções.
--
...os teus cabelos soltos são o mais belo apelo dos nós que nasceriam dos meus dedos...
--
Será que sou egoísta em me entregar a você, só para ter você pra mim?
--
...ainda lembro de tardes inteiras ao seu lado, essas que nunca tive, tão mais lindas...
--
Morro mais, não quando me matas em ti, mas quando me mutilo, por não poder ser.
--
Me desconstruindo só pra ver "enquantos" pedaços você está.
--
À minha beira, quando me procurares, deixe-me tuas rosas, é o presente dos mortos.
--
Não me encontro no seu tempo verbal, não sei se sou passado, futuro ou presente.
--
Só quem conhece o gosto da solidão, percebe o doce que há no amargo de cada companhia.
--
Ah o amor!... esse menino brincalhão que corre com o coração na mão fazendo arte e a gente feito velho gritando cuidado.
--
Qualquer dia desse eu morro! Assim bem devagar, um pouco no passar de cada hora.
--
Aquele que não sabe lidar com o fim não pode entender o que é eterno.
--
A felicidade se permite à tristes batalhas para que a tristeza não a corrompa por inteira.
--
O difícil é seduzir o barco à segurança do porto, justo para aquele que já se acostumou com as tempestades.
27.12.12
Vai saudade!
Vai saudade!
Diz pra ela, que ela é quem faz você ser
sempre mais doce…
Que só por ela vale viver em latência,
Sem jamais ser morta,
Sem jamais deixar de ser saudade…
Direção
16.8.12
19.6.12
Vendido ao tempo
Batida
Enquanto eu tempero o agora com vazios
Misturando lembrança de nós dois
Com açúcar e limão
Uma batida amarga, como se bebe a dois
Enquanto só penso em silêncio
Sozinho em casa
Mesmo com gente na sala
O mais sujo exílio
Nessa solitária de mim mesmo
14.6.12
Bate-papo
O faço, por uma convivência, entre o pensamento e o pensante
Ardo trabalho
... a convivência!
Espera!
Desça da escada da vaidade, se te leio
Também, eu?!
Sou pensamento de mim mesmo!
E pasme, tu que finges não me ler
Sou eu falando comigo
Não ocorre o mesmo com você?
... por último
me repito, poesia e poeta,
para fazer do diálogo
um pouco mais doce,
do recanto que criei, para receber a mente
E um pouco de nós dois
5.6.12
29.5.12
Insônia
O seu até breve é sol na minha noite,
é o que não me deixa dormir, é minha insônia.
Meu temor não é sua presença, sua cara de raiva,
nem minhas efêmeras dúvidas que te causam medo
Ou sua face de repulsa,
Meu temor, é o teu invisível,
É o cerco do teu perigo pela minha urgência em salvar-te,
Meu temor é a distância que dissipa o presente, ou desamarra o passado
O teu até breve,
É faca na minha certeza do corpo descrito,
Fincado em você
Até logo não!
Pois o amanhã é distante e o logo não existe!
Feche os olhos e me beije a boca dos sonhos
É onde costumo vingar, plantado no agora,
Eternizado no presente,
Petrificado na necessidade viva,
não de que me viva,
Mas que me saiba vigilante de nós,
Ainda que durmamos muitas vezes
E nesses dias, ainda zelo por teu sono
Pois eu sofro de insônia
30.4.12
Imoral
É a minha qualidade mais humana
Ali, tão irresistivelmente exposto
Covardemente vestido de homem e louco
A poesia de Bukowski, compartilharia minha lama
Defeituoso, torto, ou fraco
Me fale então, a Tua perfeição
Pergunto a Ti, que de tamanho ou benevolência
Me ardiria na alma a dor.
Se do homem ficar por fim, o caráter,
O que falam em tua ausência?
Os meus segredos são profanos
E meu nome uma mordaça
Não desenho o acaso, escrevo a lápis a vida
E o grafite que grava, tem ponta fina
Corta e fura, o papel apenas rasga
Gravo minha falta
Do que vale a minha sorte dada?
Qual dos homens passará por Sua entrada?
Sempre acho que Deus guarda um pouco de vingança e graça
A coragem de ser o que sou,
A poesia não salva
Drummond eterniza, outro rasga
De qual dos meus defeitos o amor se disfarça?
Hoje te faço palavras
Te rabisco no vento
Me julguem os ruins, os que cometem maldade
Não os bons, que cultivam o bem e não entendem
Afinal, deve haver um motivo para anjos terem asas
13.3.12
Inflamável
Estar com você é sempre como brincar com fogo,
sabendo que existe um barril de pólvora no peito…
28.9.11
Conchas na areia
Cito os meus murmúrios de respeito
Assino tudo com meu nome, para que tenham a quem culpar
Mas escrevo com letras de sereno
Que colhi no mar da vida
Como a quem recolhe conchas na areia
Brinquei de escolher gente, pessoa mesmo
Com certa irreverência, pois de todos sobrara apenas eu
Mas esse eu de ignorante, pois ainda sei-me burro de mim
E fui 'ajuntar' sem medo, alguns quase amigos
Esses que na hora certa em que a onda chega a praia
Estão à areia com você
Sempre mora mais em mim
Palavras frescas, dessas ainda molhadas de água salgada
Assumo, vezes algumas as colho em rios, então...
Minto se digo que não há doce preso em minhas conchas líricas
Colhi tudo no mar da vida
Ainda que não entenda esse baú de coisa sem preço
Meu apreço é dessa coisa toda dividida
Afinal escrever moço, é 'ajuntar' a sua língua embaralhada
De um dicionário sortido
Ou desse dividir íntimo de encontrar uma letra
No abismo de um 'A'...prolongue-o (aaaaa)!
Ou no suspiro de um U... esse de quase mesmo, (uuuu)!
Mas junta os 'pedaço' e vê se não sai,
Torcendo como pano velho, essa coisa de passado
Esse trapo molhado
Pra ver se não pinga
Amigos de hora vivida
Presentes para dividir o estouro da chegada
Da onda na praia,
Como um 'u' ou um 'a' que a gente encontra
Da palavra dividida
Eles a fração de Deus
Para Deus não se fazer mentira, nessa precisão
De métrica e companhia
27.9.11
De olhos fechados
Somos todos iguais aqui nessa casa de portas vedadas,
onde sós e nus,
nos vemos mais que no espelho do outro que nos lê.
19.9.11
Fotografia
é permitir o enquadramento pelo outro,
é deixar a composição em outras mãos, ou interpretações.
É de fato se fazer retrato em ação, ali paralisado
na face de quem agora só me lê fotografia.
Nunca temi morar em nenhuma retina, tampouco me negarei
a enfeitar móveis com passado.
Molduras ciliares me encerram.
29.8.11
Escalada
E que vamos de alguma forma conseguir algo,
seguindo o que os outros falam ou sentem?
Na maior parte do tempo estamos fazendo escolhas,
sem nem sequer conhecermos as consequências.
Atiramos o dado do destino só por um segundo e tudo muda!
Insistimos que tudo deveria parar e ser.
Mas se então se faz, a monotonia é inevitável.
Vem o desconforto e lá vamos nós, para um desembaraço
de sorrisos e lágrimas.
Até que percebemos que o fundamental não é isso?
É podermos mesmo rir, de felicidade e vontade, até doer a bochecha
Assim bem largo e forte a ponto de contagiar a todos!
O mesmo não vale para o choro?
Bom é chorar e de verdade, como se fosse o último,
Como se tivesse sido esquecido, num guarda volumes por alguém,
que nem vem te buscar!
Numa rodoviária distante, sozinho...
chorar de soluço, senão não tem graça, não vale, é fingimento.
Não é uma beira de abismo o que precisamos sempre?
Pulamos e escalamos a montanha, hoje sorrio no salto
Amanhã me lanço de tédio, depois subo como conquista
Volto sempre!
Mas, a vida não é sempre isso? (...)
A vida é não parar e a gente acha que sempre busca felicidade.
Quando na verdade...
A gente busca mesmo é passar mais tempo calmo,
mais tranquilo, apreciando a vista da montanha que subimos.
23.5.11
Quebra-cabeça
E não faz a menor diferença saber escrever.
Isso aqui é vida, a gente rabisca ali, para ler lá e depois
achar que entendeu às avessas e escrever de novo, mas agora tudo diferente.
Nada aqui está acima ou abaixo do mal ou em busca da razão acima de todas
que derrube todos os verbos com a verdade da sabedoria, isso é mentira.
Se nossa escrita tem por consequência falar aos nossos ouvidos o caminho
de entendimento de nós mesmos, oras se vê-se quebra-cabeça desmontado
falará das peças e não dá obra.
O que penso é que há um céu em uma peça que o componha, infinita quanto o todo,
logo dela falaria das nuvens como se o céu todo fervesse nela, não?
E de quem não é a dor de toda alegria e de quem não é a alegria de toda dor?
Somos essa repetição e quais as palavras que nunca foram ditas?
Somos mesmisses, exclamações, choros, indagações, somos esse coletivo desajustado,
mas a busca não é por alinhá-los ou correspondê-los, é senão por harmonizá-los,
fazer com que as pernas e os passos sigam uma direção coerente com o que
reflete no pensamento.
Boa caminhada, não na escrita, mas nas atitudes, a gente também mente
para nós mesmos e tudo o que penso é que ainda assim a ignorância não só evidência
o tão pouco que sabemos, como é ela que rege o todo pelo qual nos apaixonamos.
A verdade e a certeza, são armas contra o épico de viver!
14.12.10
Eu quero
Guerreira para reconhecer a batalha da vida e o cansaço de quem está em campo
Sonhadora para que vez ou outra possamos voar juntos
Uma mulher que tenha fé para contrastar com minhas ciências
Quero uma companheira, porque não sou forte sempre e muito pequeno no meu íntimo
Quero uma esposa, porque quero sonhar com família e aprendi sobre o valor da minha
Quero também, que ela saiba ser menina, amante e mulher
Ainda acredito nisso, depois de todo esse tempo, não pergunte-me como.
Que seja frágil, e sendo, eu me sinta grande ao protegê-la.
Quero uma irmã-mulher, que perceba que somos feitos também de defeitos
E que isso seja um convite a descoberta, que não precisamos mudar um ao outro
Quero muito uma mulher, que goste do convívio, mas entenda o espaço de cada um
Que a rotina a incomode, mas que isso não a faça fugir para o mundo
Mas proponha sempre a dinâmica mudança da conquista
E que ela, depois de tudo o que quero, me ensine a ver
que também preciso ceder a tudo isso.
Levaste minha calma
Onde quem sou, eu não sei!
Sou?
Quem?
Eu?
Cadê você?
Eu ví, você passou por aqui,
logo atrás de mim
Eu sei,
por que sem querer esbarrara na minha alma
levando toda minha calma
18.11.10
É preciso
é preciso paciência,
é preciso sonhos,
é preciso esperança,
mas quando o vento do dia muda de lado
e varre a tudo como folha,
é preciso ter sedimentado a eternidade como espelho da alma,
para acreditar que o presente
é uma criança sentada aos pés de um velho homem
25.10.10
No meu jardim
dê-me seu vício, seu desejo a pino!
Arranca-me de dentro de mim!
Esse homem que perdeu seu próprio encanto
Força-me, prostar-me-ei ao seu desejo
se de mim, me mover...
Pois a cada encanto simulado
a cada desencanto partido
me envolvo nas palavras permicivas
de um amor, de um desatino
Só para ver brotar no meu jardim
uma planta com nome e cor
E assim ao cuidar, lembra-la e chamar de minha
23.10.10
Estrelas
afinal você é essa imensidão toda e ainda assim intocável.
Essa abstração do inverso de não estar.
Estar só é estar demasiadamente acompanhado de som,
cheiro, sentido...
É olhar o amor, só para ver.
Apague às luzes ao me ler,
leia estrelas.
19.10.10
Sorrisos
Escorrem pela face clara de tua retina, assim suaves
E de alguma forma aconchegam-se nos becos de teu passado
Sorrisos sonham acordados com tua inocência
Indecentes, roubam tua vista e a olham por dentro
Justo quando teus olhos ignoram o mundo lá fora, fechados
Já me perguntei se sei dos meus sorrisos todos que moram em você
Você sempre fala de rosa, coração e espinho
Eu ainda nessa infância de gente grande, falo de pulmão, olhos e ouvido
Você finge saber-me tão perto mas é fato de que nunca nos vimos
eu ainda sento no meio-fio, à esquina da vida
Sem vê-la, tu doas teus sorrisos todos
Que guardo sem saber
15.10.10
Eu ví!
Joguei ela aqui e ela escorre, entre seus olhos
Como escapara de cada um dos meus dedos
Perdi você, não em mim, mas por sonhar em ter!
É fácil perceber que o reflexo da vontade
É da frustração a face
Favorece à minha desordenada ordem sua
Assim tão inteira e segura na rotina,
Vai me dizer, você não viu perder o sabor?
Você não me viu, perder o número do seu abraço?
Seja sincera, eu perdi a medida dos seus sonhos!
Você não me viu acordar quando veio dormir?
Mas me viu olhar,
Molhar os olhos com a dor
Eu ví!
14.10.10
Vermelho viscoso
Eu quero te espantar ou fugir, correr
Mas a minha alma não acompanha
E vivo essa luta com meu corpo
Parei em você,
Ainda que tenha mil gostos a provar
A certeza de ter colhido um fruto na árvore da vida
E conhecê-lo o sabor,
Não me cede mais que a dúvida, nunca o interesse humano do desconhecido
Vai ver a alma se preocupa com o tempo, a segurança
Do que com a calunia da juventude eterna, de sempre se lançar ao mar
Vai ver viverei em você tentando fugir de volta
Longe alma, sendo apenas corpo
- Espera! Escorre algo no meu rosto, brota dos olhos... (diz você)
Use para ler melhor, a vida é mais borrada que clara.
Deixe embaçar a vista e me veja, pois clareza e transparência é mentira,
a vida é vermelha e viscosa.
5.10.10
Na esquina de um amanhã
Perdi você no meu amanhã, na minha insensatez
Nesse meu querer tamanho
Que o hoje me devora
Eu a perdi no meu futuro e isso já faz tanto tempo
E só porque sonhei que seria você
Eu lembro, olhei nos seus olhos e disse
É você!
Foi!
Foi até o meu amanhã
Quando sentado naquele banco na esquina da sua vida
A ví passar de mãos dadas com o acaso,
Passeando com sua liberdade prometida
Cem pássaros pelo céu
Sem passos seus, sentei
Sem passar, passaram vocês
Eu sofrerei sempre
A certeza de "ser" você
Por jamais ter sido
24.9.10
Mundo
Não por que o conheça por inteiro, mas por poder conhecê-lo.
Olha lá a eternidade, se desdobrando toda no tempo,
no universo à frente de seus olhos!
E entre ela e nós, nenhuma intimidade.
Me inclino sempre mais a sentir-me em casa,
nas coisas grandes que desconheço.
Acredito sempre, que é de onde nascemos almas sem sermos homens.
23.9.10
Nossa sala
Eu quente como o sol
Sem você não surjo
Sem mim seu silêncio,
é só silêncio!
Não me escute
Veja só a minha luz
Não me apague
Deixe-me pôr à sombra
das suas curvas
Me deitar por trás de sua pele
Entardecer nos seus olhos
A meia luz de mim
Até não poder me ver
Assim me fazer noite
A sós, na sala de nós dois.
20.9.10
Cisco
caiu aqui, bem na minha vista
imprescindível graça
lendo sua farsa
seu jogo de letras
e só você me arremata sem explicação
para ser inspiração
pois amo, nada e coisa alguma quero de você
senão você com nada pra fazer
mas quase sempre prefiro nem dizer!
16.9.10
Michelangelo
compunha suas palavras fortes,
em pedra
Tomava para si a sua folha branca,
o mais claro mármore, o mais pesado "papel"
E na sua fala, destemida ante sua obra,
retiraria os excessos, deixaria em relevo
as linhas, silhuetas de sua poesia
Dançar-se-ia, em breve, sapatiando nos talhos ao chão
Deslumbrando a vida que surgia,
O corpo que, outrora sabia, havia preso em cada rocha
Em sua cirurgia, minunciosa, desenhava leve
Feito Deus, quando faz uma montanha
Usando a mão como vento e os olhos como chuva
Esculpiu a eternidade em homem
E o preconceito esfria, na pele de seu desejo
Revestido, mas não vivo, do calor que lhe falta
No amparo solidário de sua solidão
Na sua intitulada perfeição,
Seu devaneio lhe visita,
- "Perché non parli?",
Ao rasgar a sua folha, pelo poema que não sente
Não há verso que componha, sua criação.
10.9.10
Lábios cortados
Foge, queima, se afugenta
E pra que, se não sou?
Se não vou?
Você é tanto e tão mais
Não sabe o que o seu vento faz?
O que o seu verbo traz?
Como seu homem nasce?
Existe onde, que não aqui?
Esse amor inflamado, viscerado
Bordado sem cor, sem arranjo
Te cato nos meus dobrados
Você me encontra nos seus guardados
Eu sou mais rascunho dos seus pulsos
Que escritor
Me atira do seu predicado
Prejudicado, pela ameça que pratica
Pago do mesmo mal que a sua solitária
Sinto cada mordida
Tivera eu a sorte de não saber, o gosto do beijo que roubo
Não que o tenha perdido, mas tê-lo oprimido
Censurado mesmo!
Só a quem dói o inverno,
prova os lábios cortados nas manhãs frias.
9.9.10
O que eu não entendo
Mas porque o desafio!
Hoje eu arrisco,
na reposta errada mesmo!,
não por sê-la,
mas por só termos dois caminhos,
um deles, um outro que não sei
É por que o tempo pinta o rosto e joga frouxo,
passando-se de vida
enquanto é só tempo para o coração que germina.
E não é de flores que qualquer paraíso é feito?,
enfeito então à minha maneira fina
de ser cinza
A de virar poema,
ser bebido,
virar bebida
Ainda que não haja tinta,
me sobra essa malha fina
E não é arte o que fica?
Deixo nome, estilo, graça
Você sempre me convence que não é de graça
Já se fez, ainda se faz
então vem a mim essa tortura da alma presa gritando vida
Num quarto pequeno de paredes e algumas taças
Em cada copo o vinho tinto da vida
Você brinda forte, me derrama, me inspira
Escorre com pressa no pensamento,
como vela que infla seduzida pelo vento
Para chorar meu baldio terreno vendido a qualquer preço
E cadê o seu olhar atento?
Já fui entregue,
Sem apreço
Justo quando estive em aconchego
Nos seus braços, sendo!
Sentado no seu colo, debruçado nos seus olhos
Varrido pela cor ferrugem da folha que na calçada se atira
Sempre no outono,
já hoje em dia,
se vê até no inverno.
Quando o tempo, se veste de estação,
para que não esqueçamos a importância de um só dia
A pergunta que sempre me intriga
Ainda que nem sempre a resposta eu persiga
Valeu à pena, respirar cada segundo da memória,
que se forma no segundo que o presente se degola?
Quando a casa está vazia e o pensamento tem fala
Se ouve o sussurro do silêncio, assim feito companhia
Pra mergulhar no mar refletindo sol,
de um jeito que só eu via
Não há maior beleza que a da harmonia
Os pássaros sabem mais de melodia por amarem
Simplesmente amarem à vida.
E você tentando me impressionar com monossílabas
Lido por ela
Como eu poderia querer
Que soubesse o quanto eu amo você...?
É, você nada sabe.
E deve ter uma dúvida imensa disso...
Você nem acredita no que vivo,
Nessa prisão feita ao ar livre...
Talvez um dia
Você se coloque no meu lugar
Mas se o fizer,
Certamente fugirá para longe..
E me deixará aí...
Fria onde você está
Ah...
Você realmente não sabe...
Enquanto tudo que sei
É que vivo só por te amar...
17.8.10
A folha e ele
Segundo a segundo, dançando nos braços dele
Pensei que nas suas hastes haveriam mãos
E pude vê-lo segurando-a com jeito leve
Movia-se de lá para cá, caindo
Sua pele bronzeada do tempo
Cor de coisa seca, antiga
Foi então que pensei
O tempo que ele a esperou por este segundo
Eu testemunha
Da folha
Enamorada pelo paciente
Que a esperou cair em dias enormes
Fez turbilhão para tê-la em seus braços
E nada, mas chegara a vez
A vez do destino, própriamente
E o acaso me deu o tempo
Eu ví a folha
Que enamorada pelo vento
Pousou o chão
Há quem diga, que vale a vida
Esperar por um só dia
De amor puro
Disse o vento ao deixá-la em vão
O que somos
que nasceu só para se ter conhecimento do tamanho e da força.
Que existe na distância, na solidão,
no frio e na dor
Mas jamais na realidade dos fatos
Do tocar, do sentir...
Um amor que vive de platonismo,
como duas estátuas que se olham no jardim da eternidade.
Nessas horas é quando morro na nossa história.
Em um final de filme...
Onde o lago é lindo e cada um olha de um lado, o reflexo do outro.
Só você me mata e me faz renascer.
Hoje sei porque acordei para morrer.
Agora faz sentido.
Nunca mais fui eu somente.
Eu só existo por você.
_____________________________
Escrito por Roberta Carvalho / Raphael Neves
6.8.10
90 anos
Dei-me o prazer dos trinta
Aquela sedução acentuada pela aventura
Me lembro dos pedidos frente ao novo ano
Quis o mundo todo, numa golada só
Só que agora assim, de jeito estranho
Nada do peso e compromisso da vida dos adultos
Eu podia ser jovem, como criança à beira dos dezoito
Podia ser, só por ter noventa anos
Me dei a idade, calei os lamentos do corpo
Por saber que a mente é essa fogueira acesa
Incessante
E lá no sofá da sala
Decidi,
Trinta anos!
E nunca mais envelheci.