16.9.10

Michelangelo

E ele no auge de sua inspiração,
compunha suas palavras fortes,
em pedra

Tomava para si a sua folha branca,
o mais claro mármore, o mais pesado "papel"

E na sua fala, destemida ante sua obra,
retiraria os excessos, deixaria em relevo
as linhas, silhuetas de sua poesia

Dançar-se-ia, em breve, sapatiando nos talhos ao chão
Deslumbrando a vida que surgia,
O corpo que, outrora sabia, havia preso em cada rocha

Em sua cirurgia, minunciosa, desenhava leve
Feito Deus, quando faz uma montanha
Usando a mão como vento e os olhos como chuva

Esculpiu a eternidade em homem

E o preconceito esfria, na pele de seu desejo
Revestido, mas não vivo, do calor que lhe falta
No amparo solidário de sua solidão

Na sua intitulada perfeição,
Seu devaneio lhe visita,
- "Perché non parli?",
Ao rasgar a sua folha, pelo poema que não sente

Não há verso que componha, sua criação.

10.9.10

Lábios cortados

Você me arranca, me inflama
Foge, queima, se afugenta
E pra que, se não sou?
Se não vou?

Você é tanto e tão mais
Não sabe o que o seu vento faz?
O que o seu verbo traz?
Como seu homem nasce?

Existe onde, que não aqui?
Esse amor inflamado, viscerado
Bordado sem cor, sem arranjo

Te cato nos meus dobrados
Você me encontra nos seus guardados
Eu sou mais rascunho dos seus pulsos
Que escritor

Me atira do seu predicado
Prejudicado, pela ameça que pratica
Pago do mesmo mal que a sua solitária
Sinto cada mordida

Tivera eu a sorte de não saber, o gosto do beijo que roubo
Não que o tenha perdido, mas tê-lo oprimido
Censurado mesmo!

Só a quem dói o inverno,
prova os lábios cortados nas manhãs frias.

9.9.10

O que eu não entendo

Hoje eu não tenho medo, não por que não o tenha
Mas porque o desafio!
Hoje eu arrisco,
na reposta errada mesmo!,
não por sê-la,
mas por só termos dois caminhos,
um deles, um outro que não sei

É por que o tempo pinta o rosto e joga frouxo,
passando-se de vida
enquanto é só tempo para o coração que germina.

E não é de flores que qualquer paraíso é feito?,

enfeito então à minha maneira fina
de ser cinza
A de virar poema,
ser bebido,
virar bebida
Ainda que não haja tinta,
me sobra essa malha fina

E não é arte o que fica?

Deixo nome, estilo, graça
Você sempre me convence que não é de graça
Já se fez, ainda se faz
então vem a mim essa tortura da alma presa gritando vida
Num quarto pequeno de paredes e algumas taças

Em cada copo o vinho tinto da vida
Você brinda forte, me derrama, me inspira
Escorre com pressa no pensamento,
como vela que infla seduzida pelo vento

Para chorar meu baldio terreno vendido a qualquer preço
E cadê o seu olhar atento?
Já fui entregue,
Sem apreço

Justo quando estive em aconchego
Nos seus braços, sendo!
Sentado no seu colo, debruçado nos seus olhos
Varrido pela cor ferrugem da folha que na calçada se atira
Sempre no outono,
já hoje em dia,
se vê até no inverno.

Quando o tempo, se veste de estação,
para que não esqueçamos a importância de um só dia
A pergunta que sempre me intriga
Ainda que nem sempre a resposta eu persiga

Valeu à pena, respirar cada segundo da memória,
que se forma no segundo que o presente se degola?

Quando a casa está vazia e o pensamento tem fala
Se ouve o sussurro do silêncio, assim feito companhia
Pra mergulhar no mar refletindo sol,
de um jeito que só eu via
Não há maior beleza que a da harmonia

Os pássaros sabem mais de melodia por amarem
Simplesmente amarem à vida.
E você tentando me impressionar com monossílabas

Lido por ela

Você não sabe de nada mesmo.
Como eu poderia querer
Que soubesse o quanto eu amo você...?

É, você nada sabe.
E deve ter uma dúvida imensa disso...

Você nem acredita no que vivo,
Nessa prisão feita ao ar livre...

Talvez um dia
Você se coloque no meu lugar
Mas se o fizer,
Certamente fugirá para longe..
E me deixará aí...
Fria onde você está

Ah...
Você realmente não sabe...
Enquanto tudo que sei
É que vivo só por te amar...

17.8.10

A folha e ele

Parei naquele momento em que a folha caia
Segundo a segundo, dançando nos braços dele
Pensei que nas suas hastes haveriam mãos
E pude vê-lo segurando-a com jeito leve

Movia-se de lá para cá, caindo
Sua pele bronzeada do tempo
Cor de coisa seca, antiga
Foi então que pensei

O tempo que ele a esperou por este segundo
Eu testemunha
Da folha
Enamorada pelo paciente

Que a esperou cair em dias enormes
Fez turbilhão para tê-la em seus braços
E nada, mas chegara a vez
A vez do destino, própriamente

E o acaso me deu o tempo
Eu ví a folha
Que enamorada pelo vento
Pousou o chão

Há quem diga, que vale a vida
Esperar por um só dia
De amor puro
Disse o vento ao deixá-la em vão

O que somos

Às vezes temo ser parte daquele amor
que nasceu só para se ter conhecimento do tamanho e da força.

Que existe na distância, na solidão,
no frio e na dor
Mas jamais na realidade dos fatos
Do tocar, do sentir...

Um amor que vive de platonismo,
como duas estátuas que se olham no jardim da eternidade.

Nessas horas é quando morro na nossa história.

Em um final de filme...

Onde o lago é lindo e cada um olha de um lado, o reflexo do outro.

Só você me mata e me faz renascer.
Hoje sei porque acordei para morrer.

Agora faz sentido.
Nunca mais fui eu somente.
Eu só existo por você.
_____________________________
Escrito por Roberta Carvalho / Raphael Neves

6.8.10

90 anos

Aos noventa anos, quando fiz
Dei-me o prazer dos trinta
Aquela sedução acentuada pela aventura

Me lembro dos pedidos frente ao novo ano
Quis o mundo todo, numa golada só
Só que agora assim, de jeito estranho

Nada do peso e compromisso da vida dos adultos
Eu podia ser jovem, como criança à beira dos dezoito
Podia ser, só por ter noventa anos

Me dei a idade, calei os lamentos do corpo
Por saber que a mente é essa fogueira acesa
Incessante

E lá no sofá da sala
Decidi,
Trinta anos!

E nunca mais envelheci.

7.7.10

Minha estação

Qualquer planta se desprende das flores,
se queima ao sol até nascerem novos ramos.
Aceite, um dia venta e muda toda a cor dos galhos,
afinal existem as estações.
O maior problema é que a minha é sempre primavera
quando te vejo.

30.6.10

Sem nós

Vou te bebendo com os olhos
Vou tateando sua narrativa
Por motivos que a vida revelou

Vou dando sentido a achados tortos
Encontrando você em sua tinta
Devorando as lembranças que deixou

E a vontade me adentra até os ossos
Me percorre vadia
Nesse desatino de quem já amou

A pálidez da minha calma que enfeia meu ócio
Vem desse interim, se é, será ou seria
Do colo abrigo, do amor amigo, que não passou

E antes que me torne fóssil
Incrustado no seu passado, sem vida
Ouça do meu amor o clamor

Pois sem você sou foto
Com você sou coração, beijo, saliva
Sem nós, não sou

Sou ser, sem ser

10.6.10

Uma poesia escrita em silêncio, só o título

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FIM
_____________________

Sua visita é sopro no meu silêncio!
Você me bagunça e o que estava certo em não ser
toma forma!
E nasce ao inverso
O verso
Do que não era para ser
Sendo silêncio

31.5.10

Depois de ser

digo da boca já viajada
que irá em breve ainda que demore
o tempo não se conta pra quem vive de poesia e conto
e antes que se despeça de mim, terás tido o meu todo
dormido com meu cheiro e provado do meu calor
e quando assim quiser, a estrada
estar nela como despedida
me terás, não no que fui presente
mas na saudade cultivada
antes da visita da boca viajada

28.5.10

Inesperado


Às vezes me sinto menino
Me sento no precipício da vida
Me mimo,
Choro no cume da mentira
É lágrima que escorre na brecha!
Entre o coração e a alma
encontra-se a folga dos olhos.
Escorrega.
Pinta e enfeita a dor.
Acaricia a pele fina
É água,
chuva,
é carinho de pai, mãe.
É de Deus a mão
torneia meus lábios
Tem gosto de solidão
Ela cai sozinha por sobre meu queixo
Segue a ribanceira da minha face,
enquanto me cerco de montanhas
É ela quem se atira primeiro
Do penhasco de minha moradia
Enquanto permaneço sentado
À beira de tudo que crio
Meu mundo de argila
barro, pedra e areia
É quase tudo fantasia
E eu aqui molhando os olhos
Esperando pelo inesperado.

24.5.10

Desfiladeiro

Será teu silêncio o escudo que tanto profana?

Será teu escudo, tua defesa, que revela tua voz
silenciada por teus medos?!

Será então, o teu temor à tua voz, e o teu
tremor a tua forma de sentir-me?

Não peques em esconder-se, peques por ousar.

Há mais aventura no erro que na captura muda,
sem o desfiladeiro empueirado do teu corpo
em queda livre!

19.5.10

Depois de morto

Qualquer dia vou vestir a minha alma de um extremista qualquer
lhe colocar uma cintura de bombas, engatilhada pelo meu dedo de carne e osso
e mandar ela pro inferno, assim bem suicida
e quando não quiser mais, além de mim, levarei tudo aos ares

Isso mesmo, minha alma explodirei!

E depois, juntados os meus cacos, me recolher
só pra saber se depois de morto alguma coisa aprenderei.

4.5.10

Copo de vidro

Quando sou eu...
Sou tão mesmisse, que quando me rouba é como uma criança,
Que pega um copo de vidro e o taca no chão e ri,
Por que, agora, de um ela fez diversos

________________________________

Quando me vejo escrito
Sou mesmisse, essa repetição que já conheço
Quando me roubas, me recrias, me inventas
Sorrio, ao encontrar-me
Como uma criança, ao lançar um copo ao chão
Não por quebrá-lo, mas por fazê-lo em muitos

Há outro(a)

E seu beijo era doce
sua loucura, era meu torpor
era seu braço meu acalanto
seu nome meu encanto

sua boca então fez-se faca
arma branca sim
enterrando-se em outra que não minha
cortara o peito meu

esse braço que me abraça
é meu sagrado manto
castiga-me com as chicotadas dos dedos leves
e me arranca o sono com a textura
do lodo, sujo, de outro corpo

e quando me tomas, meu corpo
que não pertence a mim e nem o seu que é meu
somam-se, há um impulso
esse de carne, parece haver sangue e dor

e bebo esse fél na fonte de sua miséria
e tudo o que tenho é o resto do que não querem
meu exílio é ser sombra de mim,
na pena de mim mesmo

morro sempre que volto a ser seu
e hoje, encarno um corpo novo
o que me visita, e me encanta
por não ser você,

enquanto visto-me de algoz
na armadura feita por suas vãs atitudes
e assim, tomo o corpo que se entrega
e dormimos como cumplices

e te verei à noite, para comemorarmos
a morte de nós mesmos.

14.4.10

Folhas

Só porque é mulher madura, é fruto, mas é árvore
É doce, mas é ainda flor, folha e dança em vento forte
Enquanto me amparo na sua sombra, me abraço a seu corpo
Me escondo e você, só deixa cair as folhas

20.3.10

A sós

Na sua própria escravidão
O homem vai pelo seu caminho desenhado
E o destino não é mais que, ao normal, desdenho

Sujeito homem, que se veste de pele
E lá pelas tantas, aponta suas diferenças
Tão iguais, revestindo sempre a pobre caveira

Dos fortes e sábios, a ignorância é um apetite
Soberbos homens primatas
Antes saber não existisse e que fadas são encantadas
E assim, homem, tu tomas as fábulas

O medo, sempre uma grande caixa
E tu e eu, somos por quem senão nós?
O egoísmo engole da dor, cada sinônimo, palavra por palavra
E não reconhece o eu que guarda

Tão distante, da distância da solução
que a vida lhe bomba no peito, lhe infla o balão
Se não fosse, porque um coração?

E o homem que reconheço, se perde pelo medo certo da morte
Covarde que se inflama e se despede do mundo
Pois o tempo que lhe guarda segredos, já fala em razão
Que de certo é a morte
E a sede, o desejo da vida

Viver sem ter ninguém, para não escolher a quem
E ser do mundo, para tomar pela saliva
O gosto da noite e degustar até o dia
Preso no peito, assim, grita
O que ficou de lado, no ser embaraçado

Lá nas ranhuras, do pretérito imperfeito
- Que amar, não é defeito!
E se por um, que invada a todos
Porquê, se lhe veste a veemência
A presença é controversa
No tempo em que gira tudo

Já corroemos o absurdo da clareza
Vivamos a sós, onde só tenhamos nós
Eus tão miseráveis de mins
Como gafanhatos devorando jardins

16.3.10

Se sim...

Qual a loucura do homem que diz não?
Ela seu sonho, esse pensar inato
O convite é para vida, pro amor
E sua rotina esse desbarato, moleque feito de dor

A diferença do encanto
com o chapéu debruçado à porta,
ao quebrar à força o portão,
E quem não vive o disparate acelerado de um coração?
Me diz, a quem não adoça a paixão?

E do beijo que leva, esse sem ter sido dado
Mas devo agora, a um pirata qualquer, umas mil quantias de puro ouro
só por não ter praticado o roubo
Minha tortura navegante, carrega minha boca

Pra qual rumo vai meu entrelaço
Vadio o meu pensar, agora deixa passos na grama
Um jardim qualquer na memória de criança
E o voo do pássaro, sempre será o que fica de mais lindo

Deve ser então, louco aquele que diz sim, não?
Ter sua alma brevemente roubada ali, bem na roda do mundo
ou o desacordo dos braços, numa busca por espaço
Deveras fosse ela mulher, mas sempre despe-se feito paixão
Jardineiro das letras, palavra plantada, virá verbo

Teus olhos não me veem
Mal-falados versos imprórios, censurados pela razão
A tormenta do louco, delírio do são
Podem me falar, que se fosse sim pra sempre
pra sempre, não teria fim

18.2.10

A festa de ser

Da vida que levo, só sei do inverso
Do que não foi, invento pra criar conceitos

Do que sou, um pedaço que você deixou
Esse sem ver, que tomo sem merecer

Do carnaval deixo a máscara, o chapéu
Da festa, o confete a serpentina, desenrolados, largados

Mas no instante, não no chão
No ápice da festa, levados pelo vento

O movimento, a explosão
O canto da multidão

Sou do malandro a ginga
Do corpo a expressão

A intensidade musicada
A alegria de quem vence, o choro do perdedor

A intensidade, sem nome, raça ou cor