30.10.09

Promessas

E eu que há muito não escrevo
pareço ter perdido o dialeto dos sentidos
Eu que te prometi poemas
Hoje lhe dou em cada manhã, morna, silêncio

Esse, rebuscado de verbo,
Uma ação fria e recorrente, traidora em cada verso
Não há, senão por existir,
E é silêncio o que escrevo

No vazio de minhas mentiras, ainda prometi
Respostas às suas cartas, essas tão cheias de...
Não há nome, para o que não se conhece mais
Mas elas nunca vieram

Enganei a mim mesmo, com minhas promessas
E justo eu que me conhecia tão bem

O beijo

Essa alma pobre hoje que te escreve
Não é a minha voz quem fala
Nem meu corpo que sente

Há quase um coração, a parar
Se a ti necessita um amor,
O amor que me abriga, parece morto

Não sei se o faz como um animal a espreita
E por fim irá desferir-me seu golpe
Deixar-me entorpe com seu veneno doce

Ou se já sou um desejoso de goles maiores
Algo como um beberrão, que poucas garrafas
Saciam tão pouco que só torna a boca esvair-se em água

Esse com um quê a mais
E não tê-lo,
Ah!
É como trair-me em demasia

Cansar o já cansado bater
e me vem ora ou outra, um beijo
De tão verdadeiro, entusiasma

29.10.09

Vazio

Sou calado pela imagem fria, tua
Nem palavras, nem som, o meio se faz vazio
Estrondos ecoam a distância mais curta
E o que ouço, senão mais que meu berro esguio

Entregue à cortesia, meu ego esquecido
Ser ou não teu, não é mais minha escolha
Meu corpo, tua morada, deixado sem pedido
É a ira de ser teu, e o medo de sê-lo

Sem freio, nem sai nem fica
Percorre em minha consciência gélida
Estático, punhos e olhos, de quem finda
Palavras inertes, presas, já nascidas

Mortos, texto e razão
Sem argumentos à sua saída
Sem tê-la, advir então explicação?
Silência, minha morada, ainda que não, simplesmente vazia

22.10.09

Saudade

Saudade é esse grito da alma
É a vontade rendida pelo não

Saudade não é apenas a lembrança viva
É a vida da incerteza, do quando
E a imprecisão do tempo para o que será

Saudade é esse silêncio que fica na sua ausência
E o berro do teu olhar na minha memória

É o caminho irrecusável do amor
A trilha em meio a mata de teu ser
Para ser

Senão, nós!

É de tudo a verdade
Pois se finda em saudade
Só o que foi bom

5.10.09

Beleza consumida

Se no peito de todo homem
surgisse o amor a ela
e ela, sendo bela, vertesse o cosmo
Do divino, fosse espelho

Se amaria, penso eu.
Mas hoje faz o homem,
se não pelo poder?
Corrompido por sua criação
consome, sua desordenada ordem vazia

O caos, livre a seu bel prazer
veste a casa do mundo
E toda revolta é uma fatia da ordem
Se todo charme que seduz aos olhos
contém, por fim, harmonia

Que a revolta, seja da beleza
O seu olhar exótico!

Oras, então não manchemos o nosso rosto
de lágrimas e maquiagem,
como se consumissemos o lápis, o pó,
a verdade, em águas sujas, pelos rios da face

4.10.09

Italiana!

Te procuro sempre
e sempre, no começo do meu dia
Se não te vejo,
te procurei antes

E só o faço por vê-la,

Aqui, no silêncio da minha mente

1.10.09

Leminskiando I - Pensar

Nunca pensei que fosse ser assim!
Mas na vida não se pensa,
- Pensa!

Não quero mais,
Mas que pensar seja só
Pois quem quer, tarde parte

Na vida jamais pensei
Ser a mais

Se mais, que seja
pois cansei de pensar!

Não era pra ser assim,
será?!

Já pensei

29.9.09

Deixe-me, mas não!

deixe-me alimentar de teus desejos,
dos teus sonhos, deixe ao menos eu gozar
gozar da tua conquista com meus lampejos
gozar de teu deleite, com meu azar

deixe-me ver a tua corrente
deixe-me lançar
deixe-me cortar, nas tuas pedras, evidente
deixe-me sangrar

deixe-me torpe e entorpecer
deixe-me criança, ser
deixe-me homem, no teu colo, ferver
deixe-me, só pelo seu querer

não, não atenda, a meus pedidos
não, não julgue, meus delitos
não, não aceite, o meu corpo arredio
não, não compactue às súplicas, de teu paraiso

não, não atormente, com meu falar, o teu juízo
não, não releia, meu devaneio perdido
não, não converta em verdade, meu zumbido
não, não veja sanidade, em meu cochicho

me tome, pelo ato, sem pensar
me devore, pelo gosto, sem provar
me domine, pela força, sem tentar
me sonhe, pela vida, sem principiar

22.9.09

Ela passa

Ela passa na calçada à frente
com seu cabelo solto
Andar apressado, quase sempre
embolado com as coisas que leva
Fácil segui-la, meu olhar bobo
e o mundo pára no seu repente

Ela passa no meu pensamento
com sua graça
Andar provocante, como de costume
fruto da minha fantasia
Minha paixão, laça
leva pedaços do meu lume

Ela passa na janela
Seu olhar bordado a brilho
mastiga minha alma, com sufoco
Minha pele atravessa
acomete meu íntimo
Nas suas curvas, sou louco

Ela passa, pr'o passado
Enquanto penso em escrita
para guardar em letras
O que o tempo nos tira

21.9.09

A Marca

No chão tua mancha
Na sala do meu corpo
Tua marca
Teu último gozo

Marcado, por dias
Chão e eu
Hei de permitir, é meu!
Quem sabe assim, não finda

À tua busca,
surto da pele crua
Apego-me a teu resto
Para beber, da noite, o véu

Quiça lance-me a superfície fria
Para despir vontade íntima
Sabendo tua ausência
Enganar-me-ei ou fingirei

Para a saudade que verte
Feito companhia
Que de frio, veste
Dormir e vida

8.9.09

Palavras

Atormento, mente
Minto, mentes
Palavra, encanto
Não te resguardo
Nem me guardo
Errado, te lanço
Teu mover
Ora dentro, ora fora
Enlouquece, outrara sã
Do teu terreno
Terno, umideço
Preparo a casa
Subo, desdenho
E me afugento em seu mundo
Repleto, nem brilho
Encharco, o peito astuto
Laço no lábio
Águdo!
Berro!
Olhos que te falam mudos
Movimentam-se corpos gélidos
De poemas descartados
Previne-se
Versos de veneno recoberto
Peçonhentos
Animas, verbos
Humanos bichos
Seres libertos
De quem escreveu
Mim e você em versos
Não!
A vida hoje é pouca
Vale a morte burra
Do desejo sem alma
Da palavra
outrora plantada!

3.9.09

Dê-me

dê-me tua sede e fome
crave em meu peito a tua dor
arregasse meus olhos, com tua ferida
arrebata-me a alma com tua fé

dê-me tua exaustão e mentira
cale minha falácia com teu silêncio duvidoso
force a entrada de minha casa e me roube a calma
derrube as minhas crenças e sustente tua verdade

me enfureça...
me enlouqueça...
me repreenda,

Mas não!,
Não silêncie!

não me lance a tua inércia
não me solidifique no ócio de tuas lembranças
não me condense de tua quietude

é tua rebeldia e impulso
que saciam a minha escrita!

24.8.09

À porta de Hades

De toda inteligência inconstante,
Vinga-se a ignorância bruta da alma
Das evidências de uma vida
O tormento das lembranças

Vingar-se-á cada Deus, por criar um homem
Já o faz na intolerância de suas guerras
Vingaremos a nós, extorquindo dos Deuses, suas fábulas

Caminharemos às trevas, por distração
Não há busca, senão exercício da maldade

Forçaremos as portas de Hades,
Em súplica e envaidecidos

Ninguém fora tão longe,
Não nos caberá mais a morte
A conheceremos em vida

27.5.09

Colmeia

Ah, teus verdes olhos castanhos!
Do mel, teu

Que no tempo,
Fizera doce, tua ousadia
De me cantar saudade
Na tua despedida

E minha companhia
Solitária brisa
Fizera-se rainha

Calma colmeia, cálida
Que ensina

Todo silêncio esconde um verbo
Uma verdade seduzida
Cada esconderijo
Uma chave,
Sopro do desejo

Capricho vaidoso
Do deslumbre, da vida!

Inflamada alma

A dúvida vinga-se
Porque é ela a armadilha
Do destino

Minha inflamada alma
Arde cada dolorido pensamento
Nativo do passado enriquecido

E a vida, que sua metamorfose
Nos devora,
Saboreia!

De mim e tudo meu
Do teu sorriso, inicio
À minha, salgada, lágrima sua

Duvido eu, da vida
Essa mesma que me escreve
E não revela a tinta

Não mostra, nem mesmo,
A próxima linha
Nessa silhueta de poema
Ainda que seja só poesia

22.5.09

Visita

A ví esta noite, vinhas em minha direção, como uma brisa fria, que cortara o quarto.

Muda, com a expressão mais linda. Sorrias, sem mover a face, teus olhos descreviam o mais virgem prazer, fazendo com que meu corpo respondesse com um suspiro, fora o mesmo que tragar de uma bebida quente em uma noite de inverno.

Vestias-se como uma princesa. Um vestido longo, cor salmão, pude ver quando o mesmo deslizara por seu corpo.
Com um toque suave de tuas belas mãos, ao ombro, soltando uma das alças, que até o instante o prendera.

Desferi um movimento, o qual cortara, sem som o ar de silêncio que nos envolvia, teus olhos agora fitavam os meus, teu colo se encontrava nu, e a beleza feita de pano, dobrara-se sobre minhas mãos, envolta a tua cintura...

Foi quando se virou, senti o toque leve, sobre minha pele. Poderia então eu ver o quanto era bela tuas costas nuas, apreciava o adormecer de teus cabelos ao ombro.
Teus pés, eram firmes e lindos, caminhavam um frente ao outro, como a quem passeia nos bosques à busca de flores.

Sem mais ver tua forma, pude ouvir o bater da porta,...
leve, como a quem pedisse perdão.

18.5.09

Aço em brasa

Ele vem cortando o ar, com seu corpo em brasa
Sua rotação, translada em velocidade, vara
Corta vento, verte rubro

Dedo contraído, direcionado ou não, propulsiona
O estrondo, insinua sua força
Tamanha, que a covardia é corrompida

A menina que corre, brinca
Entre bonecas e cinzas de pedra
Garoto briga, corre com arma, atira

Adiante, outro grita...
Há medo, no assovio frio, zumbido
No anúncio da eminente morte, efémera

Pára, tempo, entremeio de agudo à queda
Olharia teus olhos vermelhos se os tivesse!
É fugitivo escravo, à serviço do meio

Congela o mundo, mudo
No seu trajeto, caem corpos
Dois em sintonia, menino e menina

Um pouco dele morre, na morte alheia
E na retomada de tua fúria
Tufão metálico, de aço

Leva da degradação à esperança,
Ao culto coletivo do silêncio atrofiado
Leva ainda, à cabeça as mãos,

Lágrimas a ermos rios, vazios
Que desaguam em vermelho vivo
Onde dorme o tiro

Agora silência, cega,
Rotineira violência que nos apodera
Por acharmos que o medo, à fala cala!

Vento frio

a casa, ainda continua vazia,
a porta do quarto entreaberta

o silêncio é pavoroso
sua imagem turva passa vez ou outra no corredor, ou no jardim,
mas em perfeito engano a imagem se desfaz e te leio
na folha que voa no vento frio que vem pela janela

hei de te ler toda vez que tua imagem me assombrar
com a certeza de que existir é ir além,
é sentir,
o que nem sempre se expressa!

30.3.09

Naufrágio

Como barco, rumo a meu naufrágio
Corpo levado, por essa âncora de alma, ao precipício alheio
Quem sabe, eu só exista, por que você também o faz?
E quem sabe se ...

Lá vem outra onda, nesse oceano de vida
É o acaso que destrói o casco
Nem a poesia compõe, nossas mentirosas justificativas
E eu, que só queria econtrá-la

Morro à carona de você.

24.3.09

Estrada

Então, descanse, sente

sente aí na beira de sua estrada,
dessa vida imensa que já se passou,
dessa imensidão, veja só o horizonte, tão longe
do tudo e nada, que ainda não veio

descanse

veja o sol acima
o imenso céu azul,
perceba, que nem do amanhã nos é permitido saber
nem se lá na frente terá uma sombra ou árvore
mas por agora, enquanto eu não sei as respostas, me sento

preciso de mim e de meu descanso
e quando meu pensamento enganar-se
e me arremessar ao passado contristado
posso chorar, ainda hoje

embusteiro pensamento!
e faço isso, porque preciso cuidar de mim,
e por agora, preciso mais de mim a qualquer outro

e então, quando renovada, mente pensante
alimentar-se-á do horizonte, como esperança,
embreagar-se-á de todas as fantasias,

volto à beira da estrada minha
com a esperança em mãos,
sabendo que metade dela é sonho e a outra,
ah! Essa outra, depende do meu caminhar

e quando meu corpo, de mim satisfizer-se,
deixarei cravado à beira, a cruz
vou me levantar, deixar um corpo
e andar, vestido de um novo