14.4.10

Folhas

Só porque é mulher madura, é fruto, mas é árvore
É doce, mas é ainda flor, folha e dança em vento forte
Enquanto me amparo na sua sombra, me abraço a seu corpo
Me escondo e você, só deixa cair as folhas

20.3.10

A sós

Na sua própria escravidão
O homem vai pelo seu caminho desenhado
E o destino não é mais que, ao normal, desdenho

Sujeito homem, que se veste de pele
E lá pelas tantas, aponta suas diferenças
Tão iguais, revestindo sempre a pobre caveira

Dos fortes e sábios, a ignorância é um apetite
Soberbos homens primatas
Antes saber não existisse e que fadas são encantadas
E assim, homem, tu tomas as fábulas

O medo, sempre uma grande caixa
E tu e eu, somos por quem senão nós?
O egoísmo engole da dor, cada sinônimo, palavra por palavra
E não reconhece o eu que guarda

Tão distante, da distância da solução
que a vida lhe bomba no peito, lhe infla o balão
Se não fosse, porque um coração?

E o homem que reconheço, se perde pelo medo certo da morte
Covarde que se inflama e se despede do mundo
Pois o tempo que lhe guarda segredos, já fala em razão
Que de certo é a morte
E a sede, o desejo da vida

Viver sem ter ninguém, para não escolher a quem
E ser do mundo, para tomar pela saliva
O gosto da noite e degustar até o dia
Preso no peito, assim, grita
O que ficou de lado, no ser embaraçado

Lá nas ranhuras, do pretérito imperfeito
- Que amar, não é defeito!
E se por um, que invada a todos
Porquê, se lhe veste a veemência
A presença é controversa
No tempo em que gira tudo

Já corroemos o absurdo da clareza
Vivamos a sós, onde só tenhamos nós
Eus tão miseráveis de mins
Como gafanhatos devorando jardins

16.3.10

Se sim...

Qual a loucura do homem que diz não?
Ela seu sonho, esse pensar inato
O convite é para vida, pro amor
E sua rotina esse desbarato, moleque feito de dor

A diferença do encanto
com o chapéu debruçado à porta,
ao quebrar à força o portão,
E quem não vive o disparate acelerado de um coração?
Me diz, a quem não adoça a paixão?

E do beijo que leva, esse sem ter sido dado
Mas devo agora, a um pirata qualquer, umas mil quantias de puro ouro
só por não ter praticado o roubo
Minha tortura navegante, carrega minha boca

Pra qual rumo vai meu entrelaço
Vadio o meu pensar, agora deixa passos na grama
Um jardim qualquer na memória de criança
E o voo do pássaro, sempre será o que fica de mais lindo

Deve ser então, louco aquele que diz sim, não?
Ter sua alma brevemente roubada ali, bem na roda do mundo
ou o desacordo dos braços, numa busca por espaço
Deveras fosse ela mulher, mas sempre despe-se feito paixão
Jardineiro das letras, palavra plantada, virá verbo

Teus olhos não me veem
Mal-falados versos imprórios, censurados pela razão
A tormenta do louco, delírio do são
Podem me falar, que se fosse sim pra sempre
pra sempre, não teria fim

18.2.10

A festa de ser

Da vida que levo, só sei do inverso
Do que não foi, invento pra criar conceitos

Do que sou, um pedaço que você deixou
Esse sem ver, que tomo sem merecer

Do carnaval deixo a máscara, o chapéu
Da festa, o confete a serpentina, desenrolados, largados

Mas no instante, não no chão
No ápice da festa, levados pelo vento

O movimento, a explosão
O canto da multidão

Sou do malandro a ginga
Do corpo a expressão

A intensidade musicada
A alegria de quem vence, o choro do perdedor

A intensidade, sem nome, raça ou cor

16.12.09

Calunia

Eu vou escrevendo os meus borrados
meias verdades, exíladas da memória
sem pretextos, violões artesanais

é vivacidade literária, esse que, à frase dita
da pura verdade anunciada
ainda que a calunia, seja minha visita

a primeira, na manhã que se aproxima.

irá gritar seu nome, com minha ira
enquanto me desprendo da palavra escrita

nem é meu, é dito
verbo engolido, esse Não rebuscado
que me lança à boca, para engolir amargo

enquanto a vida chega de mansinho, tocando cordas de aço
vibrando seu cochicho, enganando o acaso

para encontrar olhares com o sol
suspender as aves, como se fossem papel
virando o girassol
levando as nuvens ao léu

cantando promessas vivas
adormecendo a minha fome, clareando teus olhos
me fiz infame, por sentimentos tortos

esfarelei a melancolia, disfarçando lama, moldando argila
para ver o crepúsculo do meu muro
nas rimas de suas sílabas

9.12.09

Chuva e vento

Ventania de sonhos
soprando segredos
esperando as correntes do norte
inflando veleiros

o ar que chega de longe
vem quente do Sul
abraça teu corpo
te veste de azul

dançará
teus passos
a chuva fina
que beija o vento
em teu dançar?

costeando a terra
no meio do verde do mar
barco perdido
em curvas e fio

é beijo de chuva
com gosto de vento
na pele do sol
tempestade e relento

conto da brisa
virando farol
querendo tormentas
procurando tua ilha

palavras cheias
tornados de amor
tornando passáro
água e calor

7.12.09

Quem sabe?

Quem sabe não era para ser assim.

Quem sabe se não é para ser assim mesmo?

Quem sabe não conta,
mas sorri de meu presente aprisionado

Dos dias atordoados, por cada texto que não finda!

Quem sabe, silência
cada oração que surge, morta, pois lhe arranca o verbo

Quem sabe, degusta de meu desejo em sargeta!
Não se pronuncia e nem alivia,

Derrama em minha vida, a ignorância revelada
que lhe arde, e ardeu, no dia em que falou quem sabe,

Que assim era pra ser.

6.11.09

Lua

E seus olhos me cegam
Sua voz me emudece
Atropelo o tempo
Na pressa dos anseios

Vivê-la em um dia apenas
E nos outros, sem mais
Advir tempo,
Paz?

E que brote no clarear da noite
na face escura da Lua
que não se vê daqui

E em seu dançar, víl
que vire-se a minha mancha
gravada sem rima

Meu folclórico poema
Minha tardia, certeza
De que assim
Assim, me veja!

30.10.09

Promessas

E eu que há muito não escrevo
pareço ter perdido o dialeto dos sentidos
Eu que te prometi poemas
Hoje lhe dou em cada manhã, morna, silêncio

Esse, rebuscado de verbo,
Uma ação fria e recorrente, traidora em cada verso
Não há, senão por existir,
E é silêncio o que escrevo

No vazio de minhas mentiras, ainda prometi
Respostas às suas cartas, essas tão cheias de...
Não há nome, para o que não se conhece mais
Mas elas nunca vieram

Enganei a mim mesmo, com minhas promessas
E justo eu que me conhecia tão bem

O beijo

Essa alma pobre hoje que te escreve
Não é a minha voz quem fala
Nem meu corpo que sente

Há quase um coração, a parar
Se a ti necessita um amor,
O amor que me abriga, parece morto

Não sei se o faz como um animal a espreita
E por fim irá desferir-me seu golpe
Deixar-me entorpe com seu veneno doce

Ou se já sou um desejoso de goles maiores
Algo como um beberrão, que poucas garrafas
Saciam tão pouco que só torna a boca esvair-se em água

Esse com um quê a mais
E não tê-lo,
Ah!
É como trair-me em demasia

Cansar o já cansado bater
e me vem ora ou outra, um beijo
De tão verdadeiro, entusiasma

29.10.09

Vazio

Sou calado pela imagem fria, tua
Nem palavras, nem som, o meio se faz vazio
Estrondos ecoam a distância mais curta
E o que ouço, senão mais que meu berro esguio

Entregue à cortesia, meu ego esquecido
Ser ou não teu, não é mais minha escolha
Meu corpo, tua morada, deixado sem pedido
É a ira de ser teu, e o medo de sê-lo

Sem freio, nem sai nem fica
Percorre em minha consciência gélida
Estático, punhos e olhos, de quem finda
Palavras inertes, presas, já nascidas

Mortos, texto e razão
Sem argumentos à sua saída
Sem tê-la, advir então explicação?
Silência, minha morada, ainda que não, simplesmente vazia

22.10.09

Saudade

Saudade é esse grito da alma
É a vontade rendida pelo não

Saudade não é apenas a lembrança viva
É a vida da incerteza, do quando
E a imprecisão do tempo para o que será

Saudade é esse silêncio que fica na sua ausência
E o berro do teu olhar na minha memória

É o caminho irrecusável do amor
A trilha em meio a mata de teu ser
Para ser

Senão, nós!

É de tudo a verdade
Pois se finda em saudade
Só o que foi bom

5.10.09

Beleza consumida

Se no peito de todo homem
surgisse o amor a ela
e ela, sendo bela, vertesse o cosmo
Do divino, fosse espelho

Se amaria, penso eu.
Mas hoje faz o homem,
se não pelo poder?
Corrompido por sua criação
consome, sua desordenada ordem vazia

O caos, livre a seu bel prazer
veste a casa do mundo
E toda revolta é uma fatia da ordem
Se todo charme que seduz aos olhos
contém, por fim, harmonia

Que a revolta, seja da beleza
O seu olhar exótico!

Oras, então não manchemos o nosso rosto
de lágrimas e maquiagem,
como se consumissemos o lápis, o pó,
a verdade, em águas sujas, pelos rios da face

4.10.09

Italiana!

Te procuro sempre
e sempre, no começo do meu dia
Se não te vejo,
te procurei antes

E só o faço por vê-la,

Aqui, no silêncio da minha mente

1.10.09

Leminskiando I - Pensar

Nunca pensei que fosse ser assim!
Mas na vida não se pensa,
- Pensa!

Não quero mais,
Mas que pensar seja só
Pois quem quer, tarde parte

Na vida jamais pensei
Ser a mais

Se mais, que seja
pois cansei de pensar!

Não era pra ser assim,
será?!

Já pensei

29.9.09

Deixe-me, mas não!

deixe-me alimentar de teus desejos,
dos teus sonhos, deixe ao menos eu gozar
gozar da tua conquista com meus lampejos
gozar de teu deleite, com meu azar

deixe-me ver a tua corrente
deixe-me lançar
deixe-me cortar, nas tuas pedras, evidente
deixe-me sangrar

deixe-me torpe e entorpecer
deixe-me criança, ser
deixe-me homem, no teu colo, ferver
deixe-me, só pelo seu querer

não, não atenda, a meus pedidos
não, não julgue, meus delitos
não, não aceite, o meu corpo arredio
não, não compactue às súplicas, de teu paraiso

não, não atormente, com meu falar, o teu juízo
não, não releia, meu devaneio perdido
não, não converta em verdade, meu zumbido
não, não veja sanidade, em meu cochicho

me tome, pelo ato, sem pensar
me devore, pelo gosto, sem provar
me domine, pela força, sem tentar
me sonhe, pela vida, sem principiar

22.9.09

Ela passa

Ela passa na calçada à frente
com seu cabelo solto
Andar apressado, quase sempre
embolado com as coisas que leva
Fácil segui-la, meu olhar bobo
e o mundo pára no seu repente

Ela passa no meu pensamento
com sua graça
Andar provocante, como de costume
fruto da minha fantasia
Minha paixão, laça
leva pedaços do meu lume

Ela passa na janela
Seu olhar bordado a brilho
mastiga minha alma, com sufoco
Minha pele atravessa
acomete meu íntimo
Nas suas curvas, sou louco

Ela passa, pr'o passado
Enquanto penso em escrita
para guardar em letras
O que o tempo nos tira

21.9.09

A Marca

No chão tua mancha
Na sala do meu corpo
Tua marca
Teu último gozo

Marcado, por dias
Chão e eu
Hei de permitir, é meu!
Quem sabe assim, não finda

À tua busca,
surto da pele crua
Apego-me a teu resto
Para beber, da noite, o véu

Quiça lance-me a superfície fria
Para despir vontade íntima
Sabendo tua ausência
Enganar-me-ei ou fingirei

Para a saudade que verte
Feito companhia
Que de frio, veste
Dormir e vida

8.9.09

Palavras

Atormento, mente
Minto, mentes
Palavra, encanto
Não te resguardo
Nem me guardo
Errado, te lanço
Teu mover
Ora dentro, ora fora
Enlouquece, outrara sã
Do teu terreno
Terno, umideço
Preparo a casa
Subo, desdenho
E me afugento em seu mundo
Repleto, nem brilho
Encharco, o peito astuto
Laço no lábio
Águdo!
Berro!
Olhos que te falam mudos
Movimentam-se corpos gélidos
De poemas descartados
Previne-se
Versos de veneno recoberto
Peçonhentos
Animas, verbos
Humanos bichos
Seres libertos
De quem escreveu
Mim e você em versos
Não!
A vida hoje é pouca
Vale a morte burra
Do desejo sem alma
Da palavra
outrora plantada!

3.9.09

Dê-me

dê-me tua sede e fome
crave em meu peito a tua dor
arregasse meus olhos, com tua ferida
arrebata-me a alma com tua fé

dê-me tua exaustão e mentira
cale minha falácia com teu silêncio duvidoso
force a entrada de minha casa e me roube a calma
derrube as minhas crenças e sustente tua verdade

me enfureça...
me enlouqueça...
me repreenda,

Mas não!,
Não silêncie!

não me lance a tua inércia
não me solidifique no ócio de tuas lembranças
não me condense de tua quietude

é tua rebeldia e impulso
que saciam a minha escrita!