18.11.10

É preciso

É preciso

é preciso paciência,
é preciso sonhos,
é preciso esperança,

mas quando o vento do dia muda de lado
e varre a tudo como folha,

é preciso ter sedimentado a eternidade como espelho da alma,
para acreditar que o presente
é uma criança sentada aos pés de um velho homem

25.10.10

No meu jardim

Dê-me um gole de sua mulher
dê-me seu vício, seu desejo a pino!

Arranca-me de dentro de mim!
Esse homem que perdeu seu próprio encanto
Força-me, prostar-me-ei ao seu desejo
se de mim, me mover...

Pois a cada encanto simulado
a cada desencanto partido
me envolvo nas palavras permicivas
de um amor, de um desatino

Só para ver brotar no meu jardim
uma planta com nome e cor
E assim ao cuidar, lembra-la e chamar de minha

23.10.10

Estrelas

A simplicidade é a genialidade da poesia,
afinal você é essa imensidão toda e ainda assim intocável.

Essa abstração do inverso de não estar.
Estar só é estar demasiadamente acompanhado de som,
cheiro, sentido...

É olhar o amor, só para ver.
Apague às luzes ao me ler,
leia estrelas.

19.10.10

Sorrisos

Sábios são os sorrisos que dormem no úmido de teus olhos
Escorrem pela face clara de tua retina, assim suaves
E de alguma forma aconchegam-se nos becos de teu passado

Sorrisos sonham acordados com tua inocência
Indecentes, roubam tua vista e a olham por dentro
Justo quando teus olhos ignoram o mundo lá fora, fechados

Já me perguntei se sei dos meus sorrisos todos que moram em você
Você sempre fala de rosa, coração e espinho
Eu ainda nessa infância de gente grande, falo de pulmão, olhos e ouvido

Você finge saber-me tão perto mas é fato de que nunca nos vimos
eu ainda sento no meio-fio, à esquina da vida

Sem vê-la, tu doas teus sorrisos todos
Que guardo sem saber

15.10.10

Eu ví!

Eu já perdi tudo, até essa escrita que você concede
Joguei ela aqui e ela escorre, entre seus olhos
Como escapara de cada um dos meus dedos
Perdi você, não em mim, mas por sonhar em ter!

É fácil perceber que o reflexo da vontade
É da frustração a face
Favorece à minha desordenada ordem sua
Assim tão inteira e segura na rotina,

Vai me dizer, você não viu perder o sabor?
Você não me viu, perder o número do seu abraço?
Seja sincera, eu perdi a medida dos seus sonhos!
Você não me viu acordar quando veio dormir?

Mas me viu olhar,
Molhar os olhos com a dor
Eu ví!

14.10.10

Vermelho viscoso

De alguma forma pareço ancorado no seu porto
Eu quero te espantar ou fugir, correr
Mas a minha alma não acompanha
E vivo essa luta com meu corpo

Parei em você,
Ainda que tenha mil gostos a provar
A certeza de ter colhido um fruto na árvore da vida
E conhecê-lo o sabor,
Não me cede mais que a dúvida, nunca o interesse humano do desconhecido

Vai ver a alma se preocupa com o tempo, a segurança
Do que com a calunia da juventude eterna, de sempre se lançar ao mar

Vai ver viverei em você tentando fugir de volta
Longe alma, sendo apenas corpo

- Espera! Escorre algo no meu rosto, brota dos olhos... (diz você)

Use para ler melhor, a vida é mais borrada que clara.
Deixe embaçar a vista e me veja, pois clareza e transparência é mentira,
a vida é vermelha e viscosa.

5.10.10

Na esquina de um amanhã

É verdade, eu a perdi
Perdi você no meu amanhã, na minha insensatez
Nesse meu querer tamanho
Que o hoje me devora

Eu a perdi no meu futuro e isso já faz tanto tempo
E só porque sonhei que seria você
Eu lembro, olhei nos seus olhos e disse
É você!

Foi!
Foi até o meu amanhã
Quando sentado naquele banco na esquina da sua vida
A ví passar de mãos dadas com o acaso,

Passeando com sua liberdade prometida
Cem pássaros pelo céu
Sem passos seus, sentei
Sem passar, passaram vocês

Eu sofrerei sempre
A certeza de "ser" você
Por jamais ter sido

24.9.10

Mundo

Eu não tenho pra onde correr e o mundo é tão pequeno.
Não por que o conheça por inteiro, mas por poder conhecê-lo.
Olha lá a eternidade, se desdobrando toda no tempo,
no universo à frente de seus olhos!
E entre ela e nós, nenhuma intimidade.
Me inclino sempre mais a sentir-me em casa,
nas coisas grandes que desconheço.
Acredito sempre, que é de onde nascemos almas sem sermos homens.

23.9.10

Nossa sala

Você muda como o céu
Eu quente como o sol

Sem você não surjo
Sem mim seu silêncio,
é só silêncio!

Não me escute
Veja só a minha luz
Não me apague

Deixe-me pôr à sombra
das suas curvas
Me deitar por trás de sua pele

Entardecer nos seus olhos
A meia luz de mim
Até não poder me ver

Assim me fazer noite
A sós, na sala de nós dois.

20.9.10

Cisco

foi um cisco
caiu aqui, bem na minha vista
imprescindível graça
lendo sua farsa
seu jogo de letras
e só você me arremata sem explicação
para ser inspiração
pois amo, nada e coisa alguma quero de você
senão você com nada pra fazer
mas quase sempre prefiro nem dizer!

16.9.10

Michelangelo

E ele no auge de sua inspiração,
compunha suas palavras fortes,
em pedra

Tomava para si a sua folha branca,
o mais claro mármore, o mais pesado "papel"

E na sua fala, destemida ante sua obra,
retiraria os excessos, deixaria em relevo
as linhas, silhuetas de sua poesia

Dançar-se-ia, em breve, sapatiando nos talhos ao chão
Deslumbrando a vida que surgia,
O corpo que, outrora sabia, havia preso em cada rocha

Em sua cirurgia, minunciosa, desenhava leve
Feito Deus, quando faz uma montanha
Usando a mão como vento e os olhos como chuva

Esculpiu a eternidade em homem

E o preconceito esfria, na pele de seu desejo
Revestido, mas não vivo, do calor que lhe falta
No amparo solidário de sua solidão

Na sua intitulada perfeição,
Seu devaneio lhe visita,
- "Perché non parli?",
Ao rasgar a sua folha, pelo poema que não sente

Não há verso que componha, sua criação.

10.9.10

Lábios cortados

Você me arranca, me inflama
Foge, queima, se afugenta
E pra que, se não sou?
Se não vou?

Você é tanto e tão mais
Não sabe o que o seu vento faz?
O que o seu verbo traz?
Como seu homem nasce?

Existe onde, que não aqui?
Esse amor inflamado, viscerado
Bordado sem cor, sem arranjo

Te cato nos meus dobrados
Você me encontra nos seus guardados
Eu sou mais rascunho dos seus pulsos
Que escritor

Me atira do seu predicado
Prejudicado, pela ameça que pratica
Pago do mesmo mal que a sua solitária
Sinto cada mordida

Tivera eu a sorte de não saber, o gosto do beijo que roubo
Não que o tenha perdido, mas tê-lo oprimido
Censurado mesmo!

Só a quem dói o inverno,
prova os lábios cortados nas manhãs frias.

9.9.10

O que eu não entendo

Hoje eu não tenho medo, não por que não o tenha
Mas porque o desafio!
Hoje eu arrisco,
na reposta errada mesmo!,
não por sê-la,
mas por só termos dois caminhos,
um deles, um outro que não sei

É por que o tempo pinta o rosto e joga frouxo,
passando-se de vida
enquanto é só tempo para o coração que germina.

E não é de flores que qualquer paraíso é feito?,

enfeito então à minha maneira fina
de ser cinza
A de virar poema,
ser bebido,
virar bebida
Ainda que não haja tinta,
me sobra essa malha fina

E não é arte o que fica?

Deixo nome, estilo, graça
Você sempre me convence que não é de graça
Já se fez, ainda se faz
então vem a mim essa tortura da alma presa gritando vida
Num quarto pequeno de paredes e algumas taças

Em cada copo o vinho tinto da vida
Você brinda forte, me derrama, me inspira
Escorre com pressa no pensamento,
como vela que infla seduzida pelo vento

Para chorar meu baldio terreno vendido a qualquer preço
E cadê o seu olhar atento?
Já fui entregue,
Sem apreço

Justo quando estive em aconchego
Nos seus braços, sendo!
Sentado no seu colo, debruçado nos seus olhos
Varrido pela cor ferrugem da folha que na calçada se atira
Sempre no outono,
já hoje em dia,
se vê até no inverno.

Quando o tempo, se veste de estação,
para que não esqueçamos a importância de um só dia
A pergunta que sempre me intriga
Ainda que nem sempre a resposta eu persiga

Valeu à pena, respirar cada segundo da memória,
que se forma no segundo que o presente se degola?

Quando a casa está vazia e o pensamento tem fala
Se ouve o sussurro do silêncio, assim feito companhia
Pra mergulhar no mar refletindo sol,
de um jeito que só eu via
Não há maior beleza que a da harmonia

Os pássaros sabem mais de melodia por amarem
Simplesmente amarem à vida.
E você tentando me impressionar com monossílabas

Lido por ela

Você não sabe de nada mesmo.
Como eu poderia querer
Que soubesse o quanto eu amo você...?

É, você nada sabe.
E deve ter uma dúvida imensa disso...

Você nem acredita no que vivo,
Nessa prisão feita ao ar livre...

Talvez um dia
Você se coloque no meu lugar
Mas se o fizer,
Certamente fugirá para longe..
E me deixará aí...
Fria onde você está

Ah...
Você realmente não sabe...
Enquanto tudo que sei
É que vivo só por te amar...

17.8.10

A folha e ele

Parei naquele momento em que a folha caia
Segundo a segundo, dançando nos braços dele
Pensei que nas suas hastes haveriam mãos
E pude vê-lo segurando-a com jeito leve

Movia-se de lá para cá, caindo
Sua pele bronzeada do tempo
Cor de coisa seca, antiga
Foi então que pensei

O tempo que ele a esperou por este segundo
Eu testemunha
Da folha
Enamorada pelo paciente

Que a esperou cair em dias enormes
Fez turbilhão para tê-la em seus braços
E nada, mas chegara a vez
A vez do destino, própriamente

E o acaso me deu o tempo
Eu ví a folha
Que enamorada pelo vento
Pousou o chão

Há quem diga, que vale a vida
Esperar por um só dia
De amor puro
Disse o vento ao deixá-la em vão

O que somos

Às vezes temo ser parte daquele amor
que nasceu só para se ter conhecimento do tamanho e da força.

Que existe na distância, na solidão,
no frio e na dor
Mas jamais na realidade dos fatos
Do tocar, do sentir...

Um amor que vive de platonismo,
como duas estátuas que se olham no jardim da eternidade.

Nessas horas é quando morro na nossa história.

Em um final de filme...

Onde o lago é lindo e cada um olha de um lado, o reflexo do outro.

Só você me mata e me faz renascer.
Hoje sei porque acordei para morrer.

Agora faz sentido.
Nunca mais fui eu somente.
Eu só existo por você.
_____________________________
Escrito por Roberta Carvalho / Raphael Neves

6.8.10

90 anos

Aos noventa anos, quando fiz
Dei-me o prazer dos trinta
Aquela sedução acentuada pela aventura

Me lembro dos pedidos frente ao novo ano
Quis o mundo todo, numa golada só
Só que agora assim, de jeito estranho

Nada do peso e compromisso da vida dos adultos
Eu podia ser jovem, como criança à beira dos dezoito
Podia ser, só por ter noventa anos

Me dei a idade, calei os lamentos do corpo
Por saber que a mente é essa fogueira acesa
Incessante

E lá no sofá da sala
Decidi,
Trinta anos!

E nunca mais envelheci.

7.7.10

Minha estação

Qualquer planta se desprende das flores,
se queima ao sol até nascerem novos ramos.
Aceite, um dia venta e muda toda a cor dos galhos,
afinal existem as estações.
O maior problema é que a minha é sempre primavera
quando te vejo.

30.6.10

Sem nós

Vou te bebendo com os olhos
Vou tateando sua narrativa
Por motivos que a vida revelou

Vou dando sentido a achados tortos
Encontrando você em sua tinta
Devorando as lembranças que deixou

E a vontade me adentra até os ossos
Me percorre vadia
Nesse desatino de quem já amou

A pálidez da minha calma que enfeia meu ócio
Vem desse interim, se é, será ou seria
Do colo abrigo, do amor amigo, que não passou

E antes que me torne fóssil
Incrustado no seu passado, sem vida
Ouça do meu amor o clamor

Pois sem você sou foto
Com você sou coração, beijo, saliva
Sem nós, não sou

Sou ser, sem ser

10.6.10

Uma poesia escrita em silêncio, só o título

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FIM
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Sua visita é sopro no meu silêncio!
Você me bagunça e o que estava certo em não ser
toma forma!
E nasce ao inverso
O verso
Do que não era para ser
Sendo silêncio